Mostrando postagens com marcador História da Língua. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História da Língua. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Trabalhar com o que se tem em mãos (1)


     Semestre passado, depois de julho, na verdade, eu tinha um problema em mente; como testar algumas de minhas hipóteses pedagógicas sobre desenvolvimento de consciência rítmica por meio de padrões matemáticos com crianças em idade escolar? Em 2 semestres de testes com alunos do ensino médio e do ensino superior – gente dos 14 anos em diante – eu já tinha feito testes e o resultado foi o mais promissor possível, mas segundo a hipótese que eu havia formulado, era preciso que as ferramentas de ensino que desenvolvi funcionassem também com crianças menores de 12 anos. Para ser mais exato, dentro do que uma hipótese pode pretender em exatidão, os protocolos de ensino que desenvolvi tinham que funcionar, no mínimo, com qualquer criança alfabetizada e que não fosse muda. Como porém quanto mais longe dos centros de pesquisa mais importante é o título e menos o conteúdo, e não  tendo eu título algum fora o de eleitor, entrar na secretaria de um colégio qualquer e explicar o que pretendia não seria um opção válida, pensei eu, periga eu sair preso por exercício ilegal de alguma coisa já cartelizada, vá saber... Mas daí descobri um projeto do governo Federal chamado Mais Educação, onde as crianças vão em turno inverso para a escola e a cada dia da semana têm uma aula especializada. 2 matérias, Letramento e Matemática, são compulsórias mas nos outros 3 dias elas têm atividades como dança, horta e música. Bingo! Procurei então uma escola - na verdade fui chamado, mas isso é assunto para outro texto -  e o público alvo era exatamente o que eu queria e precisava; na década passada, a prefeitura pegou um pessoal que morava num lugar chamado Vila Tripa e os re-alocou numa área ao lado do bairro Ruben Berta e, creio eu, por causa disso instalou uma escola de ensino fundamental e médio neste novo bairro para que a criançada pudesse estudar e ser melhor incluída no mundo. Como moro em Cachoeirinha, uma cidade que fica grudada na Zona Norte de Poa, a distância em quilômetros não é muito grande e num mundo ideal onde não haja engarrafamento, levo uns 40 minutos entre minha casa e a escola. O trabalho é oficialmente voluntário mas o governo dá uma ajuda de custo de 300 pila para cobrir gastos com passagem e alimentação. Na verdade é um sub emprego no bom sentido da palavra, e como explicarei mais adiante, o pessoal que administra o país pra gente está marcando toca no modo de divulgar a atrair voluntários; o que estou fazendo é mais inteligente e mais simples.
     As crianças são o que tem de melhor; e quanto mais carentes, mais fácil de trabalhar com elas. Certo, sei que todo mundo pensa exatamente o oposto, e vejo muita gente falando e descrevendo o trabalho com o pessoal carente de renda como um grande ato social, como um um aprendizado de vida, mas na boa, o que estas crianças têm de mais incrível não é a capacidade de aprender, que é basicamente a mesma que encontrei lecionando numa das escolas mais caras de Poa no ano passado. Enquanto esponjinha para aprender criança é tudo igual em tudo quanto é lugar. O que estas crianças carentes têm de mais impressionante, ao menos para um professor como eu, é a franqueza. Muito cedo elas tomam contato com a violência. Volta e meia perco um aluno porque a família teve que se mudar; os pais começam a vender crack e ou começam a fumar mais do que vendem ou simplesmente gastam a parte do fornecedor, e como imagino que o leitor já saiba, no mundo do tráfico não existe SERASA e quem não paga morre, simples assim. O sexo é outra coisa absolutamente presente para eles, na matriz ruim, infelizmente, e as ligações que eles fazem entre o sexo e a agressão são bem evidentes. Eles não te mandam tomar no cu, eles dizem que vão comer o teu cú. Apesar de ser um defensor do palavrão, sou ainda mais um defensor do sentido das palavras, e uma das ferramentas que utilizo para sofisticar a relação deles com a língua portuguesa é desconstruir o significado ruim que o palavrão pode ter (desculpem, mas é isso o que penso, o palavrão é parte da língua, sim). 
    Por exemplo, no começo das aulas com eles, ainda no ano passado, o vocábulo “caralho” era mais usado que vírgula em discurso. Daí um dia parei uma aula – na verdade fui parado por uma discussão entre dois meninos que estavam oferecendo os seus um ao outro – e em vez de xingar todo mundo e discorrer um  rosário de ameaças e reprimendas, desenhei um grande barco a vela no quadro; funciona uma barbaridade fazer coisas na aula que eles não estão esperando, e o simples fato de interromper a briga dos guris e desenhar um grande barco a vela no quadro gera um silêncio imediato mesmo nos alunos mais bagunceiros, e sei que dentro da cabecinha deles tem um cérebro viciado em coisas novas, como no teu, que lendo isso não deve ter a menor idéia (mas quer ter) do porque interrompi a briga e desenhei um grande barco a vela no quadro, não é? Somos viciados em saber das coisas. Então faço o seguinte; conto pra eles que o caralho está profundamente ligado a descoberta do Brasil – na verdade é com a descoberta da América mas a historinha que conto não desmerece a História real – e quando digo isto eles já sentam e, pelo absurdo do que estão ouvindo da minha boca, aumentam mais ainda atenção em mim, e digo aumentam porque estarem ouvindo eu falar o mesmo palavrão que eles falam já é um troço que desconcerta um pouco, e ouvir o palavrão fora do contexto de agressão ou de ambiguidade sexual também tira um pouco o chão dos pequenos. No barco que desenhei faço o mastro principal bem grande e detalhado, e conto pra eles que o cara que primeiro vê a terra é o que está la em cima, naquele cestinho. A frase é conhecida “Terra à vista!”, mas o que eu conto pra elas é que o carinha este, que fica lá no cestinho, não estava la porque queria mas porque era um serviço meio que obrigatório; li em 2 relatos de viagem dos descobrimentos que era um castigo. Uma vez andei 17 horas dentro de um transatlântico e cara, ficar ainda por cima lá em cima do mastro balançando para frente e para trás e para os lados horas à fio não pode ser um troço legal de fazer. Depois de sair do barco e de estar já deitado na cama no alojamento para onde fui eu ainda sentia o balouço do mar, uma sensação muito maluca. Pois é, depois de contar estas coisas para eles eu conto que o nome do cestinho este, onde o buneco ficava de castigo ou de serviço era caralho, e é daí que vem a expressão “vá pra o caralho que te carregue” ou vá para o caralho que o fôda”. Nos Açores, na ilha de São Miguel, os habitantes chamam o que aqui chamamos de cesta – esta que usamos na páscoa para colocar ovos de chocolate – de canastra ou ainda de canalha, o que mostra que a raiz  etimológica para caralho/canastra/canalha é a mesma. Não sei se é mas acho que o que aqui chamamos taquara os portugueses chamam de cana, daí a palha da planta trançada usada para fazer cestos ser chamada de canalha, canastra ou caralho. A ligação com o pênis eu fico devendo mas pode ter a ver com o mastro que suportava o cesto, este. Depois de explicar isso pra eles deixo claro o quanto é imbecil o uso que eles fazem do vocábulo, e então acontece um fenômeno curioso; ao pensar o significado da palavra, ela parece ficar estragada para uso como palavrão, e invariavelmente eles não a utilizam mais. Mato vários coelhos com uma só história; falo da história da descoberta do novo mundo, falo das transformações que a palavra sofre com o passar do tempo e desconstruo um modelo ruim de uso da palavra, e além disso, da próxima vez em que eu começo a fazer alguma coisa incompreensível para eles, o foco de atenção dos pequenos se dá cada vez mais rápido; o que será que este professor doido vai nos contar desta vez?
           Mas mudei de assunto! o que eu quero contar destas crianças é que felizmente as minha hipóteses pedagógicas funcionam muito – não estas que citei, que nem considero pedagogia mas só levar as crianças a serio mesmo – me refiro aqui aos meus postulados sobre instrução rítmica. Durante o segundo semestre do ano passado fiz estas crianças aprender a marcar subdivisões e partindo da soma destas organizar padrões de acento e de tamanho rítmico, sempre pensando em modelos matemáticos, e salvo num momento em que os ensinei a ler o ritmo usando as figuras normais que utilizamos em música, todo o trabalho de conscientização rítmica foi feito usando apenas a capacidade de memória rítmica que cada criança tinha. Descobri por exemplo que posso ensinar frações usando o estudo do ritmo, e que posso ensinar conjuntos – pertinência, união e intersecção, inclusive – também usando as ferramentas que a capacidade rítmica dos alunos. Claro que do ponto de vista deles, e das professoras que me abalizavam o trabalho, e do ponto de vista de todo mundo, pra ser bem franco, eu estava apenas disciplinando o pensamento rítmico dos alunos e os ensinando a cantar e tocar instrumentos. Realmente, ensinar música partindo do estudo de padrões de acento e subdivisão é um milhão de vezes mais rápido e efetivo do que o modelo macaquinho que normalmente vejo nas propostas de instrução musical para crianças, mas pessoalmente já tenho evidências suficientes para acreditar que descobri novos modelos para o aprendizado de música e é uma questão de tempo para que isso cresça e saia da minha mão – tenho alunos tanto da Federal quanto do IPA estudando comigo e na medida em que estas pessoas se graduarem e passarem por sua vez a lecionar, o Processo estará cada vez mais presente no ensino de música aqui no RS, e provavelmente nem será mais chamado de Processo Nardes, mas, e é o que mais quero, será apenas um modo sério, claro e simples de estudar produzir o fazer musical. O que estou pesquisando agora é o quanto a música, vista aqui como uma versão sonora de uma folha para cálculo matemático, pode ser um poderosíssimo instrumento de instrução matemática; está tudo pronto, qualquer aluno que seja capaz de falar é capaz de aprendizado rítmico e em sua mais esmagadora maioria – eu nunca encontrei nem um único contra exemplo, mas por rigor científico não descarto que possa haver – todos os seres humanos já nascem com o software do ritmo incluído. Estou estudando a respeito, mas minha hipótese é a de que o ritmo está profundamente ligado ao processo de aprendizado da fala. Crianças de 1 ano já se balançam ao ouvir um padrão rítmico qualquer, e do balbuciar até as primeiras palavras o processo é de uma crescente sofisticação da articulação rítmica, para não citar toda uma outra parte onde o ritmo pode ser um subproduto de um outro kit que rapidamente se monta em nosso cérebro; o do equilíbrio... os virtuoses da música e os lutadores de Kung Fu sabem do que estou falando. 

sábado, 24 de março de 2012

Tudo o que todo mundo tem que saber sobre Música – no mínimo, tá? OU COMO TE CONVENCER DE QUE TEU CÉREBRO É REALMENTE CAPACITADO PARA A MÚSICA


              

Vamos voltar no tempo. Estamos agora a 40 mil anos atrás. Que tipo de ser humano vive nesse período da nossa Pré-História? Tu já notaste que nas imagens que vemos na mídia sobre o homem Pré-Histórico, é comum a representação de um ser com olhar duro e distante, desconfiado, vestido com andrajos e imundo - de picumã ou coisa pior - da cabeça com cabelos longos e encardidos até os pés descalços, com uma lança tosca na mão ou nas versões mais caricatas brandindo enorme e gordo tacape? Pois é. Durante a pesquisa, descobri que existe muitíssima informação, muitas camadas já descobertas sobre quem era e o que fazia, o que pensava esse humano de 40 mil anos. Claro que não podemos recriar suas ideias e intenções tal como fazemos uns com os outros hoje; não ha registros escritos desse período porque a escrita não existia ainda e a língua, que dentro da media entre as datas propostas entende-se que surgiu na forma atual entre 40 e 100 mil anos, ela também não possuía nem um décimo da complexidade, ou se preferirem, da riqueza semântica que possuímos hoje ao dizer um simples “Olá, como vai?”.




Caverna de Hohler Fels - Alemanha


      Veja bem a seriedade do que estou dizendo; a 40 mil anos o homem – especificamente na Europa, para este exemplo – ainda estava sofisticando a língua – sabe-se lá com que lentidão, afinal não temos como saber se a deriva de uma língua antiga era mais rápida ou o que é mais provável, mais lenta do que em línguas mais modernas como o latim, que em pouco mais de 1000 mil anos cresceu, disseminou-se literalmente por um quarto de mundo, depois foi tragado, engolido pelos povos colonizados que de falantes acabaram por ser os corruptores e lingófagos da língua romana. Em línguas antigas esse fenômeno pode ter levado dezenas de milhares de anos, mas só podemos conjecturar, pelo menos levando em conta aquilo que consegui ler, as informações que consegui juntar e por sentido, mas é bem plausível pensar que junto com a deriva humana pelo mundo, saindo da África a pelo menos 70 mil anos, qualquer forma, mesmo que incipiente de língua que essas pessoas possam ter falado, derivou, se transformou e se reformulou junto.


IMAGEM DO HOMEM PRÉ-HISTÓRICO


    A própria concepção social de família, de parentesco e de afetuosidade, o conceito de indivíduo que estas pessoas possuíam – parece até estranho chamar estas pessoas de pessoas, ou dizer que elas tinham conceito de alguma coisa - para o nosso senso comum, não existiam. Comparada com uma criança humana moderna, que é capaz de olhar para um tela de computador e jogar, conversar com varias outras crianças, por vezes em mais de uma língua, e tudo isso ao mesmo tempo e ouvindo música, qual era o tipo, a quantidade, a espécie de percepção, de ligação que esse nosso antiquíssimo irmão tinha com Real?  Podemos saber muito desse homem, que no fundo era parecido com a gente. Que coisa doida, parece que estamos a milhares de anos aprendendo a usar o cérebro, porque o corpo já está pronto a milhares e milhares...Par ser bem franco, podemos acessar muito desse nosso ancestral, muito mais pelo menos do que o grosso das pessoas pensa que pode, desses homem e mulher que aos nossos olhos podem parecer uma mistura de índio de bang bang com o Macgwayver, um ser humano igual a nós ao ponto de vestido como um homem de hoje passar tranquilamente desapercebido por entre a multidão ou ainda mais; se quando pequeno fosse roubado aos seus pais e criado como uma criança moderna também seu comportamento e cultura, e sua percepção do que fomos no passado, tudo seria condicionado ao meio em que crescesse e nada a diferenciaria de outras brincando no patio da escola durante o recreio.


O PODER DA ARQUEOLOGIA PARA NOS DEMONSTRAR VERDADES FENOMENOLÓGICAS DO PASSADO DA ESPÉCIE HUMANA

    O que sabemos afinal? Sabemos sobre sua dieta, sobre suas migrações, sobre seus rituais fúnebres e sua relação com o fogo e com o céu. A arqueologia já demonstrou por varias vezes que muito antes de aprendermos a escrever já observávamos e aprendíamos sobre o céu e sua fenomenologia, e pelo estudo das espécies e das suas transformações em nosso rastro migratório, a enormidade enciclopédica de artefatos recuperados do interior da terra nos permite reconstruir camadas muito sofisticadas da vida e do pensamento do homem de 40 mil anos. Por exemplo, a representação da mulher, do corpo feminino, tem uma constante morfológica que não pode passar desapercebida quando num período muito grande dentro do calendário migratório do homem mantem-se pouco alterada em um sitio arqueológico quase 5000 quilômetros longe um do outro. Transformações, por vezes meras adaptações ao novo tipo de rocha disponível para confecção de ferramentas servem de mapa das movimentações humanas, de sua adaptabilidade aos novos matérias que utiliza em sua construção tecnológica e também nos informam, mesmo que de modo indireto, muito mais do que apenas seus hábitos e caminhos percorridos. Analisando a natureza física de seus objetos, o tipo de manufatura envolvida e o tempo dispendido, podemos fazer conjecturas, podemos criar hipóteses plausíveis, algumas mesmo incrivelmente prováveis, sobre o que pensavam e o que queriam, sobre o que desejavam estes humanos tão distantes e no entanto, como veremos a seguir, tão próximos de nós em tantos aspectos.






Estatuas do período Paleolíticos. Elas são chamadas de Vênus









VAMOS FOCAR NO PERÍODO DAS FLAUTAS, SIM?

           No ano 40 mil AC, estamos no período paleolítico superior – os limites entre o paleolítico inferior e o superior estão mais claros do que os limites do paleolítico médio, ao menos na sua divisão com o superior, mas para o nosso caso opto por chamar de superior o período que quero abranger, entre os 40 e os 30 mil AC – e o homem europeu vive em cavernas porque a Europa desse momento histórico está congelada. Dentro dessas cavernas, protegidos das intempéries e do vandalismo, saímos de nossa nave do tempo e, analisando a estatuária que encontramos enterrada descobrimos que a representação da mulher, com tudo aquilo que chama a atenção do homem - os clichês mesmo – são representados grandes, num corpo deliberadamente obeso, as vezes um pouco apenas mas em outras completamente fora de proporção.

CUIDADO COM ESTA PARTE, E LEMBRE DE QUE SÃO apenas CONJECTURAS

     A idéia é que esses humanos, observando o nascimento de outros animais, e observando os de sua própria espécie, tinham a mulher como a força que gerava sua espécie, e numa analogia com o que acontece em uma colmeia, há quem chegue a cogitar numa organização social onde a mulher e não o homem era o gênero dominante.
     E muito impressionante, quase hipnótico o que podemos entender sobre nossa espécie e por consequência sobre nós mesmos, pensando sobre os objetos encontrados e as condições em que foram manufaturados. O tempo evolutivo que é preciso considerar para que o ser humano tenha conseguido sofisticar sua capacidade de precisão mecânica e o conhecimento sobre as ferramentas que utiliza – e o próprio tempo necessário para a evolução destas ferramentas, que deve ser basicamente o mesmo momento histórico da sofisticação dos artefatos encontrados (não podemos sofisticar a produção de um objeto sem antes sofisticar ou as ferramentas ou os meios de as utilizar), e não consigo imaginar que possuindo a capacidade de precisão, o ser humano não vai representar cada vez com mais clareza o mundo que o rodeia – o tempo necessário para este aprendizado todo é muito longo, mas em suas formas mais acabadas, mais próximas dos 40 mil, nos contam indiretamente que esse humano, que esse ser ainda diferente de nós em sua cultura mais fundamental, que não seria comparavel talvez nem com os mais atrasados de nosso mundo, esse humano que vivia dentro de uma caverna e ainda jogava os seus mortos junto com os restos de comida, esse mesmo humano desenhava nas paredes, com até meia duzia de cores diferentes – o ocre vermelho mais do que qualquer outra cor – as vezes com surpreendente capacidade de representar proporções e movimento! Acredita-se que usava além dos dedos e palmas das mãos, bastões de madeira com a ponta macerada, num simulacro de pincel de pano. Pintavam até cuspindo a tinta e usando a mão como negativo. Pensem nestas pessoas cuspindo a tinta – que de alguma maneira foi preparada antes deste momento, prescindindo por sua vez também toda uma história de conhecimento agregado – e se afastando um pouco da parede e conferindo, conforme o que tem na sua mente – não temos como saber se é uma paisagem lembrada, ou um recado ou algum código mistico – se o resultado, e frise bem esta palavra - o resultado de sua obra - estava de acordo com sua representação mental!
     Existe ainda, é claro, uma outra categoria de objetos arqueológicos que é encontrada pela primeira vez no Paleolítico superior; flautas. As encontramos confeccionadas em pedaços de marfim e em ossos de abutres, a mais antiga com 45 mil anos é confeccionada em osso de urso, e pela sua feitura podemos saber que ela é também resultado de uma evolução anterior. É incrivelmente improvavel que formas bem acabadas de tubos produtores de sons articuláveis em notas – tenham sido produzidas já nas primeiras tentativas, e mesmo estas varias tentativas devem ter acontecido, repetindo-se em longos vai-e-vem tecnológicos – influenciados pelo clima, pela região ou mudança desta.




Um humano - ou mais de um - fez esta flauta a 35 mil anos

    Por mais extraordinário que seja, eles já tinha tinham notas especificas, fenomenologicamente para o ouvido moderno um rascunho de escala, (conceituando aqui escala como uma seleção de graus de uma cromatismo dado que não sabemos se era em 12 ou menos partes, duvido  que em muito mais)




flauta de osso de urso - 41 mil anos

a arqueologia nos ensina que o ser humano, em varias partes do seu percurso evolutivo, tanto no tempo quanto no espaço, inventou e reinventou as mesmas soluções tecnológicas para seus problemas, e o curioso é que em muitas escavações vê-se, ao analisar material recuperado, que existe mais variação estilística entre os artefatos do que uma melhora constante na tecnologia empregada ou no resultado do objeto criado.             Com certeza meu amigo, a flauta de osso de abutre que chegou até nós não foi a primeira e nem a milésima construída. Aquilo para o que quero chamar a tua atenção é um aspecto específico, embutido mas desprezado numa leitura mais leviana, formal, descritiva; desde a 45 mil anos atrás, por ene razões, mas tenha como um fato, que a 45 mil anos atrás assim como pintava e olhava seu trabalho, o homem também gastava horas – dezenas delas – calmamente escavando buraquinhos em um osso de ave, cuidando para que os orifícios estejam do tamanho certo para o encaixe dos dedos, e evidentemente sabendo que o uso a ser feito deste instrumento é o de produzir sons articulados!
    Mais do que a já surpreendente percepção de que eles identificavam notas e certamente células rítmicas, o que quero dividir contigo é que esse ser fazia isso, interagia ativamente e não apenas como um ouvinte animal; assim como com a representação pictórica, e assim como a escultura, a estatuária, o homem Pré-Histórico também interagia com a dimensão sonora, que em termos de biologia, significa lidar com o som racionalmente, manipulando notas e ritmos - quaisquer que tenham sido eles – os organizando no tempo e na altura com a única ferramenta que temos para isso; nossa capacidade matemática

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Divido aqui alguns conceitos que utilizo nos cursos de Teoria Musical do Processo Nardes. 


Frequência sonora

Agora que tu já sabes que o som se propaga no ar por meio da vibração das moléculas, vibração essa causada por uma interação mecânica, vamos nos deter um pouco mais nessa vibração e pensar a respeito. Como é que se mede uma vibração? Um cientista chamado Hertz resolveu o problema pra gente; conforme a quantidade de vezes que uma vibração ocorrer por segundo as classificamos em graves ou agudas, e conforme a altura dessa vibração – altura assim de fulano é mais baixo que ciclano – maior é o seu volume. Quanto mais vibração por segundo, mais agudo, e quanto menos vibração por segundo, mais grave.
Explicar essas coisas no papel é sempre difícil, então vou usar algumas analogias que, espero, ajudem a compreensão. Nas aulas de teoria para crianças costumo mostrar a voz da vaca como exemplo de som grave e a voz do passarinho como exemplo de voz aguda, mas isso não explica o que é o grave e o que é o agudo, e fazendo isso estou apenas dando exemplos e não conceituando o que são essas palavras e que significados elas contêm. Imagine aquele som de apito de navio, sabes, ou a voz do Tropeço, aquele mordomo da Família Adams, ou tente produzir com a sua voz o som mais grave que conseguires. Quanto mais grave o som, mais tu vais conseguir identificar, ouvir mesmo, as freqüências “batendo”. Pense num motor de caminhão, em marcha lenta, em ponto morto; a vibração é lenta e dá pra imitar com a boca. Quando o caminhão anda, o que acontece quando o motorista acelera? A rotação aumenta e a vibração fica mais rápida, por isso que temos aquele som tão característico do barulho do motor trocando de marcha e acelerando; é a velocidade das freqüências que está aumentando, de modo que parece que se continuarmos acelerando e não trocarmos de marcha - o que faz a rotação do motor diminuir novamente – o som vai ficar tão agudo que o motor vai explodir. Por outro lado, quanto mais grave, menos vibração por segundo, até que chega num ponto em que conseguimos quase que contar as vibrações no tempo.

 Sonoramente, uma vibração tão lenta nos dá uma sensação de rugosidade, de irregularidade de relevo, de esfarelamento.

 Agora pensemos num violino tocando uma nota muito aguda, ou num passarinho cantando, ou mesmo numa destas pessoas que assoviam muito agudo. A vibração destes sons é tão rápida que não conseguimos contá-la. Na verdade não conseguimos sequer percebe-la, de tão rápida que ela é. A segunda corda do violino vibra 440 vezes por segundo,

e  por ser tão rápida essa vibração, temos a impressão de que os sons agudos são lisos e sem rugosidade, sem desníveis, aquosos, vítreos, limpos, transparentes.

A vibração das moléculas está alí, mas não é como as do motor do caminhão que são lentas e podemos quase que contar. Elas são tão rápidas que não ouvimos a vibração mas sim um som liso, sem vibração alguma.
Também temos a sensação de que sons mais graves são maiores do que sons mais agudos. Acho que essa impressão se dá porque nosso ouvido aprende – não sei se no decorrer de nossa formação auditiva durante nossos primeiros anos de vida ou se durante o processo de evolução da nossa espécie – que sons agudos soam em lugares pequenos; sons agudos invariavelmente provêm de fontes pequenas, sejam elas dispositivos como instrumentos musicais ou uma moeda ou uma taça de cristal ou um passarinho. Por sua vez, sons graves saem de lugares, de coisas grandes, como um contrabaixo acústico ou o motor de um caminhão, ou uma vaca... Que fique claro pra ti então que,

 som agudo vibra muitas vezes por segundo e que suas ondas de propagação são rápidas. Por sua vez, som grave vibra poucas vezes por segundo e tem ondas de propagação mais lentas.