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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Resumo de aula do curso de Teoria, na Casa da Música - 3


Vamos ao resumo, então,

    Como o pessoal deve ter percebido - pelas caras no fim da aula acho que estamos mais pra sim do que pra não - consegui colocar na cachola de vocês a percepção do que é um acorde e do porque que ele faz sentido para o nosso cérebro. Já ganhamos nosso salário do dia ao conseguirmos nos movimentar pelos graus da escala - as mulheres um pouco melhor que os homens, e a ala OSPA dominando tudo; o pessoal do TOTROMVAA - Tocadores de Trombone de Vara Autônomos - está organizando uma revanche para a próxima aula. 

    Não tem truque nem mistério; a prática diaria de pensar os graus e praticar o acesso consecutivo e aleatório é uma baita exercício, lembrando que em 1º lugar, sempre, uma divisão por quatro, para qualquer pulsação que vocês usem pra exercitar a voz. Não sabermos o tamanho da nossa articulação mínima é fazer de conta que estamos estudando, e somos pessoas decididas, que se reunem no meio da semana, no meio da tarde, querendo uma relação mais seria e não mais lúdica. Aliás, até isso já é um troço meio estranho pra mim; por que que estudar, por que que uma visão intelectualizada do fazer musical tem que sempre carregar este estigma ruim de chato, de bossal, de pretensioso?
     Vejam o nosso caso, nunca tratamos nenhum conteúdo por sua matriz emocional, nunca abordamos nenhum único conteúdo usando qualquer tipo explicação subjetiva. Tratamos os conteúdos como se fôssemos ets que vieram para a Terra estudar o FENÔMENO da música, e somente por suas propriedades Físicas e os meios também físicos, de precisão e de equilíbrio, de entonação, e mesmo assim aparentamos estar nos divertindo muito durante o processo. Quero que vocês comecem a dividir comigo a responsabilidade de mostrar para as pessoas que não somente Teoria da Música é uma matéria interessante e instigadora quanto que ela é parte inseparavel do fazer musical, assim como saber o significado das palavras que usamos não é saber a Teoria da língua mas objetivamente saber 'a' língua. 
     Depois de alguns minutos de prática rítmica, em 2, em 3, e em 4, pelo menos, pratique o começo da escala Maior e o começo da Menor, e não subestimem os seus ouvidos; decorar o acesso aleatório das escalas - lembram que falei sobre decorar a melodia e ser capaz de acessar qualquer pedaço dela, algo que vocês já fizeram com muitissíssimas músicas que decoraram - é algo que se desenvolve em algumas semanas de prática, e já começar praticando a percepção das diferenças entre os dois modos é investimento pesado na capacitação do ouvido de vocês.
     Em relação aos acordes, demos passos importantes hoje, não somente porque sedimentamos mais um pouco a percepção de que o acorde é um fenômeno acústico mas também de que em termos de tonalidade, o acorde perfeito é formado por 3 sons somente. Dado o resultado de batimentos - soma das frequências - descobrimos que não é possível combinar mais de 3 graus de uma escala dada qualquer; esse fenômeno, certamente já conhecido desde a pré história, não foi usado desde sempre mas foi aos poucos sendo reconhecido e aceito até se impor, sobretudo aos ouvidos do mundo ocidental, como o tripé matemático sobre o qual organizamos a educação e formatação tonal de nosso ouvido. 
     Pra hoje não precisa mais, creio. Salientando que ao empilhar graus de uma escala dada alguns graus tem afinidade com outros graus; graus vizinhos batem muito as frequências, mesmo que em 8º diferentes, e esses batimentos irregulares nos dão a sensação de instabilidade, os graus mais distantes da tônica - este é outro nome para o 1º grau, os graus 4º e o 5º, são os mais estáveis - claro, por estarem longe - o batimento é numa velocidade muito diferente da tônica e para o nosso ouvido esse fenômeno soa regular, estável. Semana que vem solfejo ritmico, cantado e ainda vou começar oficialmente o conteúdo dos acordes. 
     Outra maneira de divulgar o blog; estou postando os resumos lá e vocês podem indicar o blog para quem quiser ler os resumos ou se informar mais sobre o Processo.
     Forte abraço e até quarta. Continuo esperando o email do pessoal da recuperação.    


Obrigado pelo privilégio, maior a cada dia, de dividir com vocês o pouco que sei.

Sérgio

terça-feira, 17 de abril de 2012

Resumo da primeira aula do curso de Teoria, na Casa da Música - 2

Vamos lá 




    A parte dos acordes primeiro. Para mostrar acordes - que em sua concepção mais genérica são formados por 3 ou mais sons - precisamos antes saber montar escalas, e não tem reza e nem santo que te ajude nisso, tem que exercitar portanto não venha com essa história de ficar triste porque não entendeu os acordes; nem fizemos exercícios deles ainda, ora! estou brincando mas tem um fundo de verdade, e o que falei sobre acordes foi com a intenção de fazer uma primeira abordagem do tema e não de realmente esgotar a matéria. Na próxima aula o conteúdo será dissecado, e claro, estou imaginando que o povo está lendo o polígrafo. 
    Bom, repassando, sabemos que as escalas mais usadas são a Maior e a Menor - a Pentatônica, aquela de cinco graus vai entrar mais adiante - cada uma formada por uma padrão misto de tom e semitom entre os seus graus, certo? Estou falando só da Maior e da Menor, não esqueçam. Vamos pensar um pouco; sabemos que uma escala é uma coleção de graus do cromatismo, coleção esta que montamos a partir do padrão de distância que estabelecermos entre estes graus. Em uma escala por tons, por exemplo, usamos um único padrão de distância, que foi o Tom, por isso o nome da escala, entenderam? (!) quando depois estudamos as escalas Maiores, vimos que o padrão pode ser misto, e tanto é assim que é na escala Maior que encontramos semitons entre o 3º e o 4º e entre o 7º e o 8º graus. Padrão misto, taí, ó! tô falando que tem! 
    Na escala Menor também encontramos semitons em 2 lugares, só que não nos mesmos que na escala Maior, lembram? na Menor os semitons estão entre o 2 e o 3º e entre o 5º e o 6º, mas isto todo mundo já aprendeu á muitos séculos atrás, na aula retrasada. 
     Bom, de novidade mesmo, o que tivemos na última aula foi descobrir que não é só no papel que a matemática das escalas funciona; nosso ouvido - entenda-se cérebro - desenvolveu outras maneiras de calcular, e é dessa outra forma que nossa mente organiza e calcula nossa percepção tonal; aquilo que vulgarmente chamamos de capacidade musical. O termo é uma bobagem biológica mas abordo isso em um outro texto. Vimos que o lugar, a nota, o grau que escolhemos como primeiro sempre é o que sonoramente mais atrai nosso ouvido, e para provar isto basta tocar a escala em questão em qualquer instrumento e fica claro, mesmo em crianças menores de 10 anos - pela minha experiência, pelo menos - que as pessoas sabem qual é a nota mais fundamental, aquela que para nosso ouvido resolve a escala, e que é a mesma que para nossa matemática, para nossa lógica da música é o primeiro grau! Vejam que coisa fantástica, mesmo antes de aprender a calcular no papel, nosso cérebro já calcula - com resultados auditivos e não notacionais - nos informando onde é que começa e onde é que termina o padrão de distâncias; isso para mim é algo assombroso. 
    Vocês, com o decorrer do curso e o incremento da capacidade de interagir com os conteúdos, verão que muitas coisas, que muitos fenômenos que iremos estudar e sobre os quais faremos experiências são sensações já familiares a cada um; muitos de vocês já 'ouvem' acordes, trechos de escalas e dissonâncias - acontece até de não se gostar de determinado fenômeno, é muito comum ouvir gente dizendo que não gosta de dissonância, por exemplo - muitos de vocês irão apenas dar nomes e aprender a calcular notacionalmente com fenômenos que já conhecem e reconhecem quando escutam, mesmo não sendo capazes ainda de os nomear e conceituar. É legal ser humano, né?
    Pois é, nosso ouvido nos ajuda a entender o fenômeno sonoro nos mostrando marcas sonoras de atração para cada grau. ja sabemos que o primeiro é o mais fortão de todos, ele é o grau que sempre puxa, feito um ímã sonoro não importando em que grau nós estejamos. O primeiro grau é o mais poderoso de todos os 7. E será deste primeiro grau, do suporte tonal que ele dá ao nosso ouvido que começaremos a encontrar, a desenvolver e praticar, calcular mesmo, todos os outros 6. 

    Não se esqueçam de ler os textos. É uma maneira simples de vocês se inteirarem com o que estamos fazendo no Processo - além de uma mãozona para nos ajudar a crescer. Nossa missão é propor um modelo de aprendizado de música que seja rápido e pleno, sem estilos e nem esoterismo de nenhum tipo, sem aquela conversa de talento e dom. Sem a separação entre cantor e musicista, sem separação entre erudito e popular. Apenas música.

Forte abraço é obrigado por me permitir dividir com vocês o pouco que sei.


Sérgio Nardes

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Processo Nardes em 10 tópicos rápidos





Para quem não está acompanhando o que estamos fazendo no Processo. 


1º - O Processo Nardes ensina música partindo de operadores matemáticos para a organização, cálculo e prática de todos os conteúdos em música. Tudo o que é preciso para saber música pode ser - e na verdade, pelos grandes musicistas realmente o é - entendido, organizado e desenvolvido por meio de ferramentas matemáticas, partindo de conteúdos que prescindem apenas de soma e divisão de números pares menores que 10. Não existe maneira mais simples e efetiva para estudar música. E apesar de pouca gente entender isso, ainda, as músicas que gostamos de ouvir não são outra coisa que combinações matemáticas; o Processo ensina a entender e manipular, calcular estas combinações, e esse "exercício", esta prática matemática não é outra coisa que tocar, compor e ouvir música.   

2º - Não defendemos posições ou orientação estética. Esta palavra entra em nosso discurso de aula e em nossa prática instrumental como possibilidade, como um exemplo do que pode ser feito, como amostragem do que as pessoas realizavam em determinado momento, mas nunca, em hipótese alguma, como um enunciado de certo e errado no fazer musical. Isso tem que acontecer por uma razão muito simples. Estudar  a História da Filosofia não é o mesmo que estudar Filosofia, ainda sabendo que neste caso Filosofia e História têm uma relação siamesa de influência. Mesmo neste caso podemos propor modelos em que se ensine filosofia sem recorrer ao seu processo de formação no tempo. Por outro lado, precisamos realmente saber como era a técnica pianística de um determinado país, dentro de uma determinada década do século XIX, e quais os referenciais técnicos e estéticos, de formação, do compositor da obra, precisamos ainda saber algo sobre os pianos do período, ler resenhas de críticos da época, estudar programas, ler biografias, precisamos isso tudo e na verdade mais do que isso para uma tentativa de realização estética da obra pretendendo reproduzir o que , como resultado final, se escutava quando da composição da obra. Mas para dominar as possibilidades técnicas que contêm aquelas usadas na reprodução de época não podemos ter em mente uma posição tacanha de que a amostragem de determinado período histórico da música deva ter alguma prevalência sobre outro, e essa posição equivocadíssima de misturar técnica com estética fará de nós musicistas incompletos, pouco competitivos e o pior de tudo, nos impedirá de interagir, uns com os outros. Não tem cabimento que ainda se escute falar em musicista que não lê ou o que é ainda mais inacreditável, musicistas que não tocam de ouvido! Queremos que o musicista saiba ao máximo, e este é o nosso filtro pedagógico; dentro do que o estudo matemático e os exercícios de combinação de padrões nos permitem, queremos o que é possível,  em música, saber,  e não o que foi ou é certo, em música, fazer.    

3º  - Formação. Pessoas estão trancando cadeiras na faculdade de música para cumprir o Processo, e na boa, se tem gente fazendo isso - e gente disposta a falar sobre o assunto, inclusive - discutir formação em vez de conteúdo é perda de tempo. As pessoas querem aprender música, simples assim. E entre aprender mais ou citar a formação de seus professores sem aprender elas sempre vão escolher a primeira à segunda, prioritariamente. Pode perguntar para o espelho. 

4º - O Processo Nardes está tentando criar um modelo de ensino de música acessível ao maior número de pessoas possível, sem nos envolver com o que cada um vai fazer com este conhecimento. Nossa proposta é capacitar qualquer pessoa para o exercício e compreensão do fenômeno sonoro, da camada epistemológica, da fenomenologia cinesiológica e equilíbrio durante a prática de instrumento até as fórmulas que tipificam conduções harmônicas e padrões de acentuação e subdivisão rítmica. 

5º - Desde que alfabetizada, uma criança pode cumprir o Processo nos mesmos moldes que um adulto; o Processo não diferencia idades, dado que trabalhamos com categorias matemáticas muito simples e já prontas mesmo em crianças que não leem. Alguém se deu ao trabalho de fazer uma análise métrica das cantigas infantis? a capacidade de cálculo rítmico das crianças - podemos ver até suas limitações de forma e tamanho - é muito evidente em cantigas de roda. É inclusive mais forte para a criança do que sua relação com a métrica da língua; perverte-se o ritmo da palavra como em berro que fica berrô, mas não compromete a divisão do ritmo e sua acentuação.  

6º - Pedagogicamente, entendemos que conhecimento é, no mínimo, crença justificada.  Dentro do estudo da música, partindo de sua postulação e estudo matemático, o que não pode ser explicado é tido como fenômeno, mas não postulado como algo sabido. No Processo, entendemos que o problema mecânico para se obter um vibrato constante na voz, uma palhetada clara na guitarra e controle do equilíbrio do arco do violino é o mesmo. O estudo e resolução deste problema soluciona-o em qualquer dispositivo mecânico que tenhamos em mãos. Por outro lado, não entender abstratamente é perder possibilidades, perder ligações, é perder camadas inteiras do fazer musical, e podemos dizer com orgulho que todos os nosso alunos se interessam por pensar e discutir a música. Ninguém quer ficar de fora da conversa...     

7º - Entendemos que um aluno adiantado no Processo tem que conseguir replicar outro aluno. Por isso, incentivamos enfaticamente que cada aluno tenha também os seus, com o mesmo rigor de justificação e experimento com que ele próprio estuda. Como não achamos que é o ensino de música mas sim o seu exercício o fomentador e produtor de renda  principal, nosso interesse é o de ensinar música ao maior número possível de pessoas e não o de ganhar o máximo possível com o número de pessoas. Muitos dos nossos alunos lecionam até de graça, num entendimento de que o conhecimento musical não deve ser cobrado. 

8º - Nossa divulgação maior é o depoimento de nossos alunos, nosso encontros abertos e nossos cursos de música gratuitos, em Poa e no interior. Somos pessoas de verdade unidas pela vontade e empenho de estudar música seriamente, não só mas também pelo prazer que é estudar música, e que pode ser afiançado por qualquer um de nós que tu encontre na rua.    

9º - Para o Processo, nada é anterior ao fenômeno rítmico

10º - O Objetivo do Professor de música deve ser o de transformar seus alunos em colegas e parceiros, em divulgadores da atividade em música. O professor não deve  mentir sobre o que consegue e não consegue realizar. Mostrar ao aluno onde está o próprio limite de realização mostra que não somente somos honestos mas também que reconhecemos que temos arestas. Deste modo, agindo com seriedade e isonomia, teremos alunos  motivados e disponíveis.

Afinação e Desafinação (1)


      Em música acontecem coisas bizarras. Quando digo em música, quero dizer no que as pessoas entendem por música, no que essa palavra e a atividade que ela rotula significam para o grosso das pessoas. Por mais inacreditavel que seja, o maior problema que enfrento para ensinar é fazer o aluno perceber que não é difícil e que não é preciso nenhum talento especial, nenhuma capacidade sobre humana para que possamos estudar e aprender música; meus pre-requisitos atualmente são estar alfabetizado e conseguir manter o tronco reto. Mas por culpa de uma compreensão distorcida do que é fundamentalmente – e antes de tudo – saber música, centenas de milhares de pessoas deixam de aprender. O triste dessa situação pedagógica é que essa má educação, essa má compreensão do fazer musical age como um vírus; leio coisas absurdas como um curso de técnica vocal que em sua divulgação fala que o que importa não é a afinação real mas sim sua afinação interna! É assustador. Estamos – eu ao menos e o leitor que está agora considerando isso acreditando que afinação, no mínimo deve ser algo objetivamente passível de medir, de verificar melhora ou piora de resultado. Só isto de verificar já é um troço estranhíssimo para mim, porque não se ensina afinação como se ensina uma música, não existe isso de mais ou menos afinado de afinado numa música e em outra não, de afinado nos graves mas não nos agudos, mas somente entender ou não entender o que é afinação, no violino, no tambor, na nossa voz e mesmo no ventilador de teto da tua casa.
    Afinação é um fenômeno físico, e essa conversa fiada – me desculpem a rugosidade do texto mas não acho outro adjetivo ao mesmo tempo claro e ameno para isso – de que afinação é algo que se constrói com relaxamento, com uma vivência interior do canto se expandindo e ocupando lugar dentro de nós,cara é mistificar e traduzir fenômenos físicos em termos idiossincráticos, subjetivos e completamente equivocados, como geralmente acontece com qualquer tentativa de estabelecer conhecimento de maneira subjetiva que prescinda de verificação. Não estou preocupado se é possível produzir resultado vocal em alguém com esse procedimento, e sei perfeitamente que existem pessoas que são tão musicais que aprendem até mesmo vendo pela televisão e ouvindo radio. Estou preocupado em delimitar o que é preciso, com o mínimo de confusão conceitual e o máximo de aproveitamento de instrução e tempo, para que o máximo possível de pessoas possa entender o máximo possível de música.
    Especificamente no caso do canto, a picaretagem é tal que só a consigo comparar com a que viceja no meio religioso; os professores ficam repetindo escalas e mais escalas e afundando seus alunos em questões de timbre e registro que só servem para produzir imitadores. Ninguém consegue manipular timbre, ninguém consegue ler, ninguém consegue improvisar mas todos têm um enorme cabedal de posições estéticas e técnicas do fulano e do cicrano, citação de escolas estéticas, orientação de ene professores; apesar de não oferecer resultado palpavel, por causa de uma industria pseudointelectual de ensino é passada e repassado, este modelo, como mais um de uma longa lista de remédios caseiros que não funcionam, mas que são rapidamente substituídos por outros e outros e outros. Ensino qualquer um a afinar a própria voz em poucos minutos, não importando o histórico que esta pessoa tem como aluno e nem a opinião que ela ou outro professor tenha dado anteriormente. E na verdade, geralmente já ensino o cantor a afinar mais do que o grosso das pessoas que não estuda música. O truque? Nenhum, apenas, em vez de experimentos corporais sobre ressonância e timbre e outras bobagens, pura e simplesmente convido o aluno a pensar e perceber o fenômeno do som. Ainda não encontrei nenhum ser humano – quem nasce com amusia é diferente porque é uma causa biológica e não entra no exemplo – que escute e seja desafinado, entendendo desafinado aqui como a pessoa que não consegue cantar ou emitir uma nota afinada com outra ou com algum centro tonal interno. Aliás, esse é um dos grande erros que os professores cometem; eles pressupoem que o aluno já sabe o que é afinar - como no estudo do ritmo, cometem o mesmo erro, pressupondo que o aluno já saiba dividir -  e que o seu trabalho é apenas fazê-lo cantar mais agudo e mais grave. Pergunte para alguém bastante afinado como é que ele explica a sua afinação e verás como é difícil, mesmo para quem é afinado, descrever o fenômeno. Quando este é entendido, o afinado e o desafinado estão em condições de igualdade para estudar, e com o passar do tempo e com um mínimo de estudo, pessoas que começam a instrução sem conseguir emitir nem uma única nota com constância e volume se nivelam com outros que sempre foram afinados. Respeito ao estudante de canto e caça aos picaretas da música. toca!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Trabalhar com o que se tem em mãos (1)


     Semestre passado, depois de julho, na verdade, eu tinha um problema em mente; como testar algumas de minhas hipóteses pedagógicas sobre desenvolvimento de consciência rítmica por meio de padrões matemáticos com crianças em idade escolar? Em 2 semestres de testes com alunos do ensino médio e do ensino superior – gente dos 14 anos em diante – eu já tinha feito testes e o resultado foi o mais promissor possível, mas segundo a hipótese que eu havia formulado, era preciso que as ferramentas de ensino que desenvolvi funcionassem também com crianças menores de 12 anos. Para ser mais exato, dentro do que uma hipótese pode pretender em exatidão, os protocolos de ensino que desenvolvi tinham que funcionar, no mínimo, com qualquer criança alfabetizada e que não fosse muda. Como porém quanto mais longe dos centros de pesquisa mais importante é o título e menos o conteúdo, e não  tendo eu título algum fora o de eleitor, entrar na secretaria de um colégio qualquer e explicar o que pretendia não seria um opção válida, pensei eu, periga eu sair preso por exercício ilegal de alguma coisa já cartelizada, vá saber... Mas daí descobri um projeto do governo Federal chamado Mais Educação, onde as crianças vão em turno inverso para a escola e a cada dia da semana têm uma aula especializada. 2 matérias, Letramento e Matemática, são compulsórias mas nos outros 3 dias elas têm atividades como dança, horta e música. Bingo! Procurei então uma escola - na verdade fui chamado, mas isso é assunto para outro texto -  e o público alvo era exatamente o que eu queria e precisava; na década passada, a prefeitura pegou um pessoal que morava num lugar chamado Vila Tripa e os re-alocou numa área ao lado do bairro Ruben Berta e, creio eu, por causa disso instalou uma escola de ensino fundamental e médio neste novo bairro para que a criançada pudesse estudar e ser melhor incluída no mundo. Como moro em Cachoeirinha, uma cidade que fica grudada na Zona Norte de Poa, a distância em quilômetros não é muito grande e num mundo ideal onde não haja engarrafamento, levo uns 40 minutos entre minha casa e a escola. O trabalho é oficialmente voluntário mas o governo dá uma ajuda de custo de 300 pila para cobrir gastos com passagem e alimentação. Na verdade é um sub emprego no bom sentido da palavra, e como explicarei mais adiante, o pessoal que administra o país pra gente está marcando toca no modo de divulgar a atrair voluntários; o que estou fazendo é mais inteligente e mais simples.
     As crianças são o que tem de melhor; e quanto mais carentes, mais fácil de trabalhar com elas. Certo, sei que todo mundo pensa exatamente o oposto, e vejo muita gente falando e descrevendo o trabalho com o pessoal carente de renda como um grande ato social, como um um aprendizado de vida, mas na boa, o que estas crianças têm de mais incrível não é a capacidade de aprender, que é basicamente a mesma que encontrei lecionando numa das escolas mais caras de Poa no ano passado. Enquanto esponjinha para aprender criança é tudo igual em tudo quanto é lugar. O que estas crianças carentes têm de mais impressionante, ao menos para um professor como eu, é a franqueza. Muito cedo elas tomam contato com a violência. Volta e meia perco um aluno porque a família teve que se mudar; os pais começam a vender crack e ou começam a fumar mais do que vendem ou simplesmente gastam a parte do fornecedor, e como imagino que o leitor já saiba, no mundo do tráfico não existe SERASA e quem não paga morre, simples assim. O sexo é outra coisa absolutamente presente para eles, na matriz ruim, infelizmente, e as ligações que eles fazem entre o sexo e a agressão são bem evidentes. Eles não te mandam tomar no cu, eles dizem que vão comer o teu cú. Apesar de ser um defensor do palavrão, sou ainda mais um defensor do sentido das palavras, e uma das ferramentas que utilizo para sofisticar a relação deles com a língua portuguesa é desconstruir o significado ruim que o palavrão pode ter (desculpem, mas é isso o que penso, o palavrão é parte da língua, sim). 
    Por exemplo, no começo das aulas com eles, ainda no ano passado, o vocábulo “caralho” era mais usado que vírgula em discurso. Daí um dia parei uma aula – na verdade fui parado por uma discussão entre dois meninos que estavam oferecendo os seus um ao outro – e em vez de xingar todo mundo e discorrer um  rosário de ameaças e reprimendas, desenhei um grande barco a vela no quadro; funciona uma barbaridade fazer coisas na aula que eles não estão esperando, e o simples fato de interromper a briga dos guris e desenhar um grande barco a vela no quadro gera um silêncio imediato mesmo nos alunos mais bagunceiros, e sei que dentro da cabecinha deles tem um cérebro viciado em coisas novas, como no teu, que lendo isso não deve ter a menor idéia (mas quer ter) do porque interrompi a briga e desenhei um grande barco a vela no quadro, não é? Somos viciados em saber das coisas. Então faço o seguinte; conto pra eles que o caralho está profundamente ligado a descoberta do Brasil – na verdade é com a descoberta da América mas a historinha que conto não desmerece a História real – e quando digo isto eles já sentam e, pelo absurdo do que estão ouvindo da minha boca, aumentam mais ainda atenção em mim, e digo aumentam porque estarem ouvindo eu falar o mesmo palavrão que eles falam já é um troço que desconcerta um pouco, e ouvir o palavrão fora do contexto de agressão ou de ambiguidade sexual também tira um pouco o chão dos pequenos. No barco que desenhei faço o mastro principal bem grande e detalhado, e conto pra eles que o cara que primeiro vê a terra é o que está la em cima, naquele cestinho. A frase é conhecida “Terra à vista!”, mas o que eu conto pra elas é que o carinha este, que fica lá no cestinho, não estava la porque queria mas porque era um serviço meio que obrigatório; li em 2 relatos de viagem dos descobrimentos que era um castigo. Uma vez andei 17 horas dentro de um transatlântico e cara, ficar ainda por cima lá em cima do mastro balançando para frente e para trás e para os lados horas à fio não pode ser um troço legal de fazer. Depois de sair do barco e de estar já deitado na cama no alojamento para onde fui eu ainda sentia o balouço do mar, uma sensação muito maluca. Pois é, depois de contar estas coisas para eles eu conto que o nome do cestinho este, onde o buneco ficava de castigo ou de serviço era caralho, e é daí que vem a expressão “vá pra o caralho que te carregue” ou vá para o caralho que o fôda”. Nos Açores, na ilha de São Miguel, os habitantes chamam o que aqui chamamos de cesta – esta que usamos na páscoa para colocar ovos de chocolate – de canastra ou ainda de canalha, o que mostra que a raiz  etimológica para caralho/canastra/canalha é a mesma. Não sei se é mas acho que o que aqui chamamos taquara os portugueses chamam de cana, daí a palha da planta trançada usada para fazer cestos ser chamada de canalha, canastra ou caralho. A ligação com o pênis eu fico devendo mas pode ter a ver com o mastro que suportava o cesto, este. Depois de explicar isso pra eles deixo claro o quanto é imbecil o uso que eles fazem do vocábulo, e então acontece um fenômeno curioso; ao pensar o significado da palavra, ela parece ficar estragada para uso como palavrão, e invariavelmente eles não a utilizam mais. Mato vários coelhos com uma só história; falo da história da descoberta do novo mundo, falo das transformações que a palavra sofre com o passar do tempo e desconstruo um modelo ruim de uso da palavra, e além disso, da próxima vez em que eu começo a fazer alguma coisa incompreensível para eles, o foco de atenção dos pequenos se dá cada vez mais rápido; o que será que este professor doido vai nos contar desta vez?
           Mas mudei de assunto! o que eu quero contar destas crianças é que felizmente as minha hipóteses pedagógicas funcionam muito – não estas que citei, que nem considero pedagogia mas só levar as crianças a serio mesmo – me refiro aqui aos meus postulados sobre instrução rítmica. Durante o segundo semestre do ano passado fiz estas crianças aprender a marcar subdivisões e partindo da soma destas organizar padrões de acento e de tamanho rítmico, sempre pensando em modelos matemáticos, e salvo num momento em que os ensinei a ler o ritmo usando as figuras normais que utilizamos em música, todo o trabalho de conscientização rítmica foi feito usando apenas a capacidade de memória rítmica que cada criança tinha. Descobri por exemplo que posso ensinar frações usando o estudo do ritmo, e que posso ensinar conjuntos – pertinência, união e intersecção, inclusive – também usando as ferramentas que a capacidade rítmica dos alunos. Claro que do ponto de vista deles, e das professoras que me abalizavam o trabalho, e do ponto de vista de todo mundo, pra ser bem franco, eu estava apenas disciplinando o pensamento rítmico dos alunos e os ensinando a cantar e tocar instrumentos. Realmente, ensinar música partindo do estudo de padrões de acento e subdivisão é um milhão de vezes mais rápido e efetivo do que o modelo macaquinho que normalmente vejo nas propostas de instrução musical para crianças, mas pessoalmente já tenho evidências suficientes para acreditar que descobri novos modelos para o aprendizado de música e é uma questão de tempo para que isso cresça e saia da minha mão – tenho alunos tanto da Federal quanto do IPA estudando comigo e na medida em que estas pessoas se graduarem e passarem por sua vez a lecionar, o Processo estará cada vez mais presente no ensino de música aqui no RS, e provavelmente nem será mais chamado de Processo Nardes, mas, e é o que mais quero, será apenas um modo sério, claro e simples de estudar produzir o fazer musical. O que estou pesquisando agora é o quanto a música, vista aqui como uma versão sonora de uma folha para cálculo matemático, pode ser um poderosíssimo instrumento de instrução matemática; está tudo pronto, qualquer aluno que seja capaz de falar é capaz de aprendizado rítmico e em sua mais esmagadora maioria – eu nunca encontrei nem um único contra exemplo, mas por rigor científico não descarto que possa haver – todos os seres humanos já nascem com o software do ritmo incluído. Estou estudando a respeito, mas minha hipótese é a de que o ritmo está profundamente ligado ao processo de aprendizado da fala. Crianças de 1 ano já se balançam ao ouvir um padrão rítmico qualquer, e do balbuciar até as primeiras palavras o processo é de uma crescente sofisticação da articulação rítmica, para não citar toda uma outra parte onde o ritmo pode ser um subproduto de um outro kit que rapidamente se monta em nosso cérebro; o do equilíbrio... os virtuoses da música e os lutadores de Kung Fu sabem do que estou falando. 

domingo, 25 de março de 2012

Mais alguns escritos que fiz quando estava estudando para a palestra


             Quando ouvimos uma peça musical ela desencadeia uma rede de atividades neurais em nosso cérebro, e qualquer busca no Google faz referência, quase já como um clichê,  ao fato científico de que toda a nossa massa cinzenta fica ativa; nosso cérebro ouve música e fica piscando naquelas cores vivíssimas das tomografias computadorizadas, ilhas vermelhas e ilhas amarelas banhadas por um mar de azul que as atravessa em ondas. A música, ou o som, mais exatamente – nem todo o som é música, como veremos adiante – realmente é um fenômeno percebido,  diretamente, apenas por um único sentido, o da audição, mas que exatamente como todos os outros sentidos que possuímos, é processado por nosso cérebro em todas as dimensões possíveis de se imaginar – o imaginar aqui entendido de maneira incrivelmente literal.


LEMBRANÇAS LIGADAS a MUSICA

              Muitas das canções que até hoje escuto, algumas pelo menos uma vez por semana, estão diretamente ligadas a experiências do meu passado, e por uma ou outra razão – desde lembrar da música ao ouvir uma outra parecida, ou ouvi-la quando pensava em algo específico ou até a letra, que tem alguma significação ou remetência a algo que me aconteceu – simplesmente não consigo esquecer, desconsiderar isso enquanto as escuto. Sei exatamente quais os acordes, sei os solos, em algumas delas eu poderia regravar sozinho todas as partes, de todos os instrumentos, de tantas vezes que já as ouvi e já as toquei. Existem canções das quais tenho todas as partes decoradas, as vezes até gravo-me tocando tudo para ver como fica.  Detenho uma relação epistemológica, matemática, tecnica quanto a natureza mecânica dos instrumentos envolvidos e  também possuo a destreza mecânica e ritmica para a execução destes instrumentos, mas ainda assim - ou apesar disso -  a peça continua a me lembrar do café com leite morno, bem doce que meu pai bebia nos sábados de manhã junto comigo. Essa lembrança que tem mais de 30 anos já, desencadeia em mim uma sensação de nostalgia enorme e sinto uma vontade louca de reviver aquele momento, de voltar mais uma vez até àquele instante e viver novamente a sensação que agora apenas lembro haver sentido.

É AQUI QUE A PARTE DA MANIPULAÇÃO DAS PESSOAS PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO UTILIZANDO A MÍDIA PODE SER TRATADA, SE JÁ NÃO O TIVER SIDO

              Certo, já entendemos que nosso cérebro liga, associa a música com outros eventos, com outras ações no mundo, ou ainda com outro pensamento que se revese com a música na lupa de nossa consciência. Mas isso explica que ligamos a música a uma outra ação de nosso intelecto ou emoção mas não explica como é que nosso cérebro distingue entre o que é e o que não é considerado música.

AQUI JÁ EXPLIQUEI COMO É QUE O CÉREBRO LIGA SONS, MÚSICAS, CANÇÕES, A EVENTOS, E SENSAÇÕES, COMO SE FOSSE, LITERALMENTE, A TRILHA SONORA DE NOSSA INTERAÇÃO COM O REAL.  PODE-SE CITAR COMO, por EXEMPLO, O FATO DE QUE DESDE O COMEÇO DO CINEMA – COMO UMA REPRESENTAÇÃO DO REAL, A DIMENSÃO SONORA ESTEVE PRESENTE. TODOS OS CINEMAS TINHAM PIANISTAS, EM ALGUNS LUGARES 2 OU 3, QUE ACOMPANHAVAM AS CENAS E FAZIAM UMA TRILHA INCIDENTAL DURANTE TODAS AS CENAS.

LITERALMENTE, NOSSA PERCEPÇÃO DO REAL ENQUANTO COISA QUE SE VÊ, É REFORÇADA E CLARIFICADA, OU PELO MENOS DEFINIDA, QUANDO AGREGAMOS A ELA O SOM.  ESSA  PERCEPÇÃO É TÃO TENDENCIOSA NO SENTIDO DE PRIORIZARMOS O SONORO E NÃO O VISUAL – ME REFIRO AQUI A REPRESENTAÇÃO DO REAL PARA QUEM É PLATEIA, QUE PODEMOS DIZER QUE MUSICA SEM IMAGEM É MAIS DO QUE IMAGENS SEM SOM QUE ATÉ HOJE ESCUTAMOS MÚSICA SEM A IMAGEM – PODERÍAMOS CONCEBER UM MUNDO PERFEITAMENTE POSSÍVEL, CULTURALMENTE, ONDE NÃO SE ACEITASSE MAIS OUVIR MUSICA SEM A IMAGEM DE SEUS EXECUTANTES

 – MAS O CINEMA MUDO, A IMAGEM SEM SOM, CAIU EM DESUSO NO PRIMEIRO INSTANTE EM QUE FOI POSSÍVEL FILMAR COM SOM. Chaplin FOI UM DOS ÚLTIMOS DIRETORES A ADOTAR O SOM, E QUANDO O FEZ, PRATICAMENTE FORÇADO, CRIOU UMA ESQUETE NO FILME ONDE INTERPRETAVA UM MILIONARIO RUSSO, QUE TENTA CONQUISTAR UMA garota DA PRESENTES, PEDE BEIJOS E OUTRAS INTIMIDADES, AS QUAIS A GAROTA ENTENDE E USA A SEU FAVOR,  chaplin  faz isso cantando, USANDO SUA PRÓPRIA VOZ E COM SOTAQUE RUSSO, MAS SEM DIZER NEM UMA ÚNICA PALAVRA! A LINHA MELÓDICA DA MÚSICA, OS CROMATISMOS E A FORMA AB, TUDO É MUITO INTELIGENTE E BEM ACABADO, O TAPA DE LUVA AOS DEFENSORES DO CINEMA FALADO -  Chaplin entendia que APENAS O CINEMA MUDO ERA REALMENTER ARTÍSTICO – FOI O DE  MESMO COM A MÚSICA E O SOM E A VOZ, ELE CONSEGUIr FAZER A MESMA ESTÉTICA DO MUDO, INDEPENDENTE DE TODO O RESTO.  E QUANDO EU DISSE QUE ELE FEZ SOTAQUE DE RUSSO, ISSO É CORRETO MAS ENTENDENDO QUE FOI APENAS UMA ONOMATOPEIA RUSSA COM OS SONS DA LÍNGUA RUSSA MAS SEM SIGNIFICAÇÃO ALGUMA, AFORA A  eNTONAÇÃO.               

 – a música esta, que eu ouvi junto com meu pai talvez uma única vez, provinha de um rádio mono que ficava em cima da geladeira. Essa geladeira, bem como a tampa do forno que minha mãe usava seguido para fazer pão, e a porta da rua que tinha uma fechadura antiga com aquelas chaves grossas como chave de castelo, todos estes objetos faziam barulho, produziam som e eu os ouvia com muito mais frequência do que a canção esta. Porque não lembro de nenhum deles, então? Como é que o meu cérebro infantil conseguia distinguir o que devia ou não entrar nas minhas lembranças, ou colocando de um modo mais dramático, como é que eu defini tão perfeitamente, e sem o saber – pelo visto - o que qualquer ouvido adulto e treinado reconheceria ser música?
                                     
Os sentidos humanos, mais específico

              Não sei se o paladar consegue nos transmitir padrões matemáticos, mas garanto que nunca os senti na boca (um riso), assim como também nunca senti o cheiro do 3 ou do 5; por estarem ligados a algo que nos é muito caro - os hormônios e as comidas – em nossa prehistória seu uso era centenas de vezes mais importante e mais determinante pra nossa sobrevivência – olfato e paladar são sentidos – canais de entrada do mundo para nosso cérebro – muito populares, muito discutidos entre as pessoas. Pare pra pensar no quanto da tua relação com o mundo é olfativa; eu lembro do cheiro de podre de um pedaço de madeira, um pequeno tronco, que ficava nos fundos de uma casa onde eu morava quando tinha 3 anos, e de todas as casas onde morei lembro o cheiro. Não vejo imagens se movendo em minhas lembranças, é tudo como fotos, geralmente escuras e com pouca ou nenhuma cor- um tipo de preto com marron no mais das vezes – mas lembro do cheiro de muitos dos objetos e pessoas que vejo. Uma vez, em um ensaio de coro falei da minha relação com o olfato e os cantores me desafiaram a adivinhar quem eram as pessoas apenas pelo seus cheiros; olhando-as, cheirei 5 pessoas, algo como uns 3 segundos cada, porque muito tempo do mesmo cheiro satura e borra, e depois fui vendado e cheirei elas, em ordem aleatória, novamente. Acertei todos, de primeira, e acho que se forem pessoas conhecidas de longa data, eu consigo fazer com o dobro ou o triplo de pessoas, é algo ainda a experimentar.
              O tato é outro sentido subestimado. O ser humano consegue ler – cito isto porque ler, com qualquer sentido possível já é por sí só um feito incrível -  qualquer texto com as mãos sem precisar ver e sem precisarouvir nada. Veja o poder deste sentido; tenho uma sobrinha que não vê e que está começando a estudar piano.tu sabia que existem partituras para cegos que são lidas com as mãos; o musicista lê com uma e toca a outra, por fim decorando as duas e as executando juntas. Podemos ainda viajar mais no tato e pensar que se uma doença misteriosa afetasse a espécie humana e perdêssemos a capacidade da fala e da visão simultaneamente, ainda assim toda a nossa cultura escrita, se preservada em Braile, continuaria a disposição de quem desejasse se instruir.
              Mas convenhamos que o sentido matemático por principio é o da visão. Com ele podemos apreciar diretamente varias categorias matemáticas literalmente a olho nú, e estudando suas regras e aplicações de metragem e proporção, a visão ferramentada pela matemática possibilitou ao homem, desde as priscas eras reproduzir o real e perpetuar essa representação para o futuro – aqui é ainda é de um sentido mais poderoso, o mais de todos no meu entendimento. Se fôssemos iguais em tudo mas sem a visão, apenas isso já faria de nossa espécie algo tão diferente do que somos e do que imaginamos ser que não me parecer possível conjecturar nem a mais geral propriedade que teríamos, como agentes do mundo, como seres que raciocinam, que pensam abstratamente. Como construir uma  dimensão abstrata se não temos o que abstrair, ora? Como seria o sitema filosófico, ético de uma sociedade cega e muda? Como seria, eu me pergunto, o seu humor, suas piadas? Certamente o alfato e o paladar estariam muito mais presentes, além do tato. Haveria gente lendo com os cotovelos, com a língua, com a orelha e com outras partes que não quero nem pensar. Nos cumprimentaríamos com cheiradas e lambidas e os cães teriam com as pessoas uma relação bem mais íntima do que temos hoje.
              Pois é. Olfato, paladar, tato e visão; 4 de 5 sentidos, não é? pois repassando o texto que acabei de escrever, vi que os sentidos têm todos, as vezes juntos e as vezes separados, a função de nos informar o que acontece do lado de fora da gente, e ao mesmo tempo em que perceber isso me enche de emoção e orgulho me dou conta de que  na verdade isto é um troço até meio óbvio, sabe? É legal, é impressionante mesmo, mas se pensarmos bem, tinha que ser assim. Se estes sentidos não fossem todos eles as maravilhas de coleta de informações sensorial, a nossa relação toda com o mundo, nossa interação toda com o mundo não existiria, e não seríamos mais gente, mas uma outra coisa que não sei o que é.

Focar no ouvido

              Agora que já expus minha opinião sobre a importancia dos sentidos para a nossa construção do Real, vamos nos ocupar daquele sentido que é o sentido de nossa palestra. De um modo diferente mas mesmo assim muito presente, muito constante, a audição é um sentido mal compreendido, caro leitor. Para começar, estão sempre comparando nossa capacidade de ouvir com a de outros animais que ouvem frequencias mais agudas, ou outros que ouvem frequencias mais graves, e que podem ser ouvidos a 50 quilômetros de distância – há evidências de que as baleias se escutam a distâncias de mais de 10 mil quilômetros  – e essa semana recebi um video mostrando 15 minutos de um cão tocando piano com as patas, junto do argumento de que o animal possuia ouvido absoluto. Mas é raro ver, ouvir ou mesmo ler sobre o que nosso ouvido tem de incrível em precisão, o que nosso ouvido tem de único, e o grosso das pessoas não acredita que seus ouvidos sejam capazes de mais do que aquilo que todo o ouvido tem que fazer; ouvir um carro se aproximando, passos no corredor, o bipe do microondas ou o telefone tocando. Realmente, o nosso ouvido foi desenvolvido para funções muito mais simples do que as que com a civilização acabamos por desenvolver, nosso ouvido adaptado para o universo sonoro da floresta e da savana, para diferenciar pelo peso do som se o animal que se aproxima a noite é nocivo ou não, capaz de reconhecer uma voz específica em meio a mais de 2 dúzias de outras gritando ao mesmo tempo, e portanto de identificar corretamente a proporção matemática interna de frequências sobrepostas, muitas vezes 5 delas ao mesmo tempo! Nosso ouvido nos permite ainda uma outra coisa maravilhosa; ele nos serve de canal de entrada para conhecimento matemático, quase tanto quanto a visão! Vou explicar melhor com alguns exemplos práticos.
              Agora que já demonstrei que podemos usar a música para organizar padrões ritmicos, acho que posso pedir que este sentido seja promovido a um patamar mais alto em nosso roll de atenção e conejcturas. Normalmente nosso ouvido é elogiado por sua capacidade para a música, não é? Mas tu já reparou que depois disso ou vira uma descrição sem fim de algum misterioso atributo emocional, algum dom, algo do divino, do sobrenatural, do sublime; quando há uma tentativa de ligar algum compositor, alguém tira um Bach do bolso ou saca um Mozart e quando vemos já estamos tendo uma daquelas conversas de louco ‘pois é, gênio é gênio – essa música é maravilhosa, isso é que é música’ ou então volta aquela conversa fiada de que só alguns poucos privilegiados tem o dom do ouvido e bla bla e bla. Poucas são as pessoas que param para pensar no porque gostamos tanto de ouvir alguns sons, algumas combinações de som e silêncio, determinado timbre ou região de um registro, ou colocando de outro jeito, poucas são as pessoas que se perguntam por que gostamos tanto de música.
      
matemática

               Uma vez, na praia vi um homem brincando com seu cachorro; o homem jogava uma bola de jogar taco, de borracha, para o alto, sempre de modo a cair dentro da água, no razinho. O cão acompanhava com os olhos enquanto corre corrigindo o ângulo de sua corrida pelo movimento eliptico da bola no ar. Muita gente ignora, mas o cérebro deste cão faz cálculos matemáticos bem complicados de explicar – eu não consigo nem saber quais são, mas é fato que o cérebro, tanto do cão quanto o nosso – calcula probabilidades, distâncias, estatísticas, soma, divide e subtrai, tudo isso mesmo que nunca venhamos a frequentar a escola. Quando vamos ao colégio, a função dos professores de matemática é a de nos ensinar a nomenclatura das ferramentas que 5000 anos de história do pensamento matemático deram a espécie humana e nos ensinar a transformar em notação matemática – e com isso obter um grau infinitas vezes mais preciso - aquilo que percebemos e pensamos sobre o real.
              Muitos de nós não conseguem desenvolver isso e acabam, infelizmente para a espécie, ficando de fora de todo o universo de intelectualidade que uma consciência matemática desenvolvida e instruída pode nos oferecer.  Um exemplo bem ilustrativo do quanto o raciocínio matemático está presente na mente de todos nós é nossa capacidade de reconhecer padrões; código morse, para ficarmos num exemplo diretamente ligado ao nosso tema.  Reconhecemos o tamanho de cada som no tempo, sua duração, e organizamos grupos aleatorios desses sons em letras e depois sílabas, depois palavras, frases e parágrafos inteiros. Ouvi falar mas não sei se é uma fonte confiavel, mas ouvi falar que os telegrafistas escreviam e liam na mesma velocidade em que uma pessoa escrevendo em letra cursiva. De qualquer maneira fica demonstrado que organizar padrões simples que se organizam em varias camadas de complexidade sempre crescente de padrões é um dos princípios que organiza o proprio raciocínio matemático. Pensando bem, quando olhamos para um quadro que nos emociona, ou uma paisagem real que se abre a nossa frente depois de uma curva, de uma esquina, também estamos identificando, calculando padrões de distância entre os objetos que vemos e outras dezenas, centenas de milhares de calculos por segundo, como o cão que vi corrigindo o seu movimento conforme o ângulo da boa jogada pelo seu dono, para padrões de cor, de iluminação e, que é o que mais nos interessa aqui, padrões de som.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Divido aqui alguns conceitos que utilizo nos cursos de Teoria Musical do Processo Nardes. 


Frequência sonora

Agora que tu já sabes que o som se propaga no ar por meio da vibração das moléculas, vibração essa causada por uma interação mecânica, vamos nos deter um pouco mais nessa vibração e pensar a respeito. Como é que se mede uma vibração? Um cientista chamado Hertz resolveu o problema pra gente; conforme a quantidade de vezes que uma vibração ocorrer por segundo as classificamos em graves ou agudas, e conforme a altura dessa vibração – altura assim de fulano é mais baixo que ciclano – maior é o seu volume. Quanto mais vibração por segundo, mais agudo, e quanto menos vibração por segundo, mais grave.
Explicar essas coisas no papel é sempre difícil, então vou usar algumas analogias que, espero, ajudem a compreensão. Nas aulas de teoria para crianças costumo mostrar a voz da vaca como exemplo de som grave e a voz do passarinho como exemplo de voz aguda, mas isso não explica o que é o grave e o que é o agudo, e fazendo isso estou apenas dando exemplos e não conceituando o que são essas palavras e que significados elas contêm. Imagine aquele som de apito de navio, sabes, ou a voz do Tropeço, aquele mordomo da Família Adams, ou tente produzir com a sua voz o som mais grave que conseguires. Quanto mais grave o som, mais tu vais conseguir identificar, ouvir mesmo, as freqüências “batendo”. Pense num motor de caminhão, em marcha lenta, em ponto morto; a vibração é lenta e dá pra imitar com a boca. Quando o caminhão anda, o que acontece quando o motorista acelera? A rotação aumenta e a vibração fica mais rápida, por isso que temos aquele som tão característico do barulho do motor trocando de marcha e acelerando; é a velocidade das freqüências que está aumentando, de modo que parece que se continuarmos acelerando e não trocarmos de marcha - o que faz a rotação do motor diminuir novamente – o som vai ficar tão agudo que o motor vai explodir. Por outro lado, quanto mais grave, menos vibração por segundo, até que chega num ponto em que conseguimos quase que contar as vibrações no tempo.

 Sonoramente, uma vibração tão lenta nos dá uma sensação de rugosidade, de irregularidade de relevo, de esfarelamento.

 Agora pensemos num violino tocando uma nota muito aguda, ou num passarinho cantando, ou mesmo numa destas pessoas que assoviam muito agudo. A vibração destes sons é tão rápida que não conseguimos contá-la. Na verdade não conseguimos sequer percebe-la, de tão rápida que ela é. A segunda corda do violino vibra 440 vezes por segundo,

e  por ser tão rápida essa vibração, temos a impressão de que os sons agudos são lisos e sem rugosidade, sem desníveis, aquosos, vítreos, limpos, transparentes.

A vibração das moléculas está alí, mas não é como as do motor do caminhão que são lentas e podemos quase que contar. Elas são tão rápidas que não ouvimos a vibração mas sim um som liso, sem vibração alguma.
Também temos a sensação de que sons mais graves são maiores do que sons mais agudos. Acho que essa impressão se dá porque nosso ouvido aprende – não sei se no decorrer de nossa formação auditiva durante nossos primeiros anos de vida ou se durante o processo de evolução da nossa espécie – que sons agudos soam em lugares pequenos; sons agudos invariavelmente provêm de fontes pequenas, sejam elas dispositivos como instrumentos musicais ou uma moeda ou uma taça de cristal ou um passarinho. Por sua vez, sons graves saem de lugares, de coisas grandes, como um contrabaixo acústico ou o motor de um caminhão, ou uma vaca... Que fique claro pra ti então que,

 som agudo vibra muitas vezes por segundo e que suas ondas de propagação são rápidas. Por sua vez, som grave vibra poucas vezes por segundo e tem ondas de propagação mais lentas.

O que é o som?

Na disciplina da Física denominada Acústica, estudamos que o som é produzido sempre por um fenômeno físico e que este fenômeno precisa de matéria para se propagar. O som não se propaga no vácuo. No ar - que é um complexo de vários gases, não nos esqueçamos disso - o som se propaga a uma velocidade de 340 metros por segundo. Em outros meios, como a água ou algum sólido como metais, madeira ou outro material sintético, essa velocidade de propagação é diferente; geralmente mais rápida. Peguemos como exemplo  o som produzido pelas nossas pregas vocais;

O ar, pressionado pelos músculos do nosso corpo é pressioado por entre as pregas vocais e conforme o controle que exercermos sobre estes músculos e sobre a espessura, tensão e resiliência dessas pregas, obtemos variedade de diferentes timbres, de diferentes “matizes“ sonoras; a interação física entre o ar sob infinitas matizes de intensidade de ataque muscular e as infinitas formatações possíveis de nossas duas membranas e suas cartilagens é que produzem a nossa voz, nossos diferentes timbres, nossa entonação, nosso volume de som.


              Mas como é que esse som produzido pela interação mecânica sai do meu aparelho fonador e chega até os ouvidos do meu aluno? Que mágica é essa que leva, que carrega essa interação mecânica de um lugar até outro no espaço?  Escrevemos aqui em cima que o ar é um composto de vários gases, e mesmo que não os vejamos, evidentemente eles estão aqui entre nós e dentro de nós, entrando, transformando-se e saindo; nós não vemos mas estamos totalmente imersos em gás. Pois é, a unidade básica da constituição de um gás é a molécula, então imagine uma molécula de gás dentro da sua laringe, que é onde ficam as suas pregas vocais. Imagine essa molécula aí dentro paradinha, encostada nas suas membranas. Daí a membrana vibra e durante essa vibração ela encosta na molécula e a contamina com essa vibração! A molécula agora não está mais parada, porque pegou, assim que nem se pega gripe, ela pegou a vibração da membrana, e como ela agora está vibrando também, esse movimento vibratório passa também para a molécula do lado, que por sua vez passa para outra que passa para outra e outra, até que essa vibração alcance o ouvido da outra pessoa. O ouvido é um órgão que se especializou em perceber, em sentir e decodificar essas vibrações moleculares, mas isso é outra história. No vácuo não tem gás, e é por isso que o som não se propaga. Se existe algo no vácuo ou se o vácuo é um lugar de não existência eu não sei, mas sem ar, caro leitor, sem som!


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Impossível ensinar o que não se sabe, simples assim!


    O Processo Nardes, numa parceria com a Ufrgs, mais exatamente com o Colégio de Aplicação,  mantem no Campus do Vale um curso regular de Teoria Musical que acredito ser o único no Estado funcionando nestes termos; a prática é derivada de uma compreensão epstemológica do que é Música. No último semestre, abrimos 30 vagas e recebemos mais de 500 inscrições, de gente das graduações, de alunos do Aplicação, de pessoas da Federal de Santa Maria e de Pelotas e até uma menina de Ijuí, que não veio porque Ijuí é longe pacas de Porto Alegre..
                Me impressiona sobretudo dois aspectos  do perfil e interesse destes inscritos – só conseguimos atender os 30 que prometemos, por falta de espaço e logística de tempo. O primeiro aspecto é que existe uma demanda imensa por educação musical. Alunos de 12 anos e alunos de 70, universitários e gente já formada e gente de pouca instrução, gente com grana e sem grana – o curso funciona com uma contribuição de 10 reais/mês, que fica com o Aplicação para uso geral da escola; o Processo ministra este curso sem ganho algum – enfim, não existe um perfil definido de aluno mas sim, creio eu, um interesse comum em aprender. 
                O segundo aspecto que me chama a atenção é que alunos que já fizeram aula de Música antes de tomar conhecimento do Processo se impressionam muito mais com as aulas do que aqueles que nunca tiveram nenhuma instrução prévia em Música. Me pergunto então; não deveria ser o contrario? Aqueles que já têm algum conhecimento deveriam entender mais rápido o que digo, ensino e demonstro não é? E os leigos, os néscios, os  que se iniciam na Música pelas mãos do Processo é que deveriam não digo nem se deslumbrar mas demonstrar surpresa ou aquele olhar brilhante de quem está finalmente entendendo alguma coisa importante e até aquele momento desconhecida. Por estranho que pareça, não é isso que acontece, não.
                 Para quem parte do zero absoluto tudo é normal; os alunos iniciantes se impressionam sim, mas não com os Protocolos de Acento – nome de um de nossos três eixos de exercício – mas com a percepção de que a Música está acontecendo em suas mentes e que aquilo que eles querem aprender lhes está sendo ensinado; aprender o fazer musical. Já os que chegaram até nós depois de uma instrução prévia, em 100% das vezes ficam primeiro desconfiados, e conforme lhes ensino e desenvolvo os primeiros exercicios, por força das evidências demonstradas em aula, começam a me dar um pouco de crédito, e depois vem o que os alunos veteranos do Processo chamam de ressaca; o momento em que o aluno começa a pensar no porque tais e tais professores não lhes ensinaram isso e aquilo, e porque não lhes disseram que era assim tão mais fácil, tão mais simples, e porque tais e tais professores contaram tantas mentiras e distorções em vez de simplesmente admitirem que não sabiam explicar ou, como realmente é muito comum no meio musical, por que o professor não disse que sabia fazer mas que não sabia explicar.
                Em termos de conhecimento objetivo, verificavel, o saber fazer não é saber, isso porque para mim, Sérgio Nardes, se cada aluno não for capaz de replicar o que sabe, isso significa que fracassei como professor; só se professa aquilo que se acredita, e só se acredita naquilo que se sabe, ou não? ou alguém aí acredita em algo que não sabe? Pois é... O aluno é alguém especial, o aluno que está querendo, se dispondo e se colocando em minhas mãos para aprender Música é um tesouro, é uma jóia, é uma força querendo se manifestar, o aluno de Música, para mim, é a coisa mais importante do mundo, e ensinar Música é o que dá sentido a minha vida, e não entendo a falta de paixão destes professores que em vez de colegas, de outros musicistas com eles mesmos, formam copiadores, formam macaquinhos que repetem e repetem e repetem, sem nunca serem sabedores, senhores do fazer musical que lá atrás, no seu primeiro movimento de procurar aula, queriam ser.
                A estes professores, quero dizer que a culpa é SEMPRE de vocês. O aluno nunca é culpado, e se ele – o aluno - levanta a bunda sai de casa para ter aula, só isso, somente este pequeno movimento, este pequeno empenho de energia, isso é tudo o que é preciso para fazê-lo aprender. Vou repetir para que não haja dúvida sobre a minha posição; o mau aluno é sempre culpa do seu professor, sempre, sempre, sempre. Alguns professores tentam se defender dizendo que não dá pra ensinar mais seriamente para um aluno que já chega em aula querendo tocar esta ou aquela música, ou que o aluno já chega em aula querendo tocar músicas e não estudar técnica. Mas essa afirmação é de uma estupidez exemplar, porque pressupoe que o aluno – que chega em aula sem saber o que é música e sem saber como se aprende e sem saber do que a Música é feita, sem saber nada, caralho, afinal é por isso que ele está na tua frente querendo aprender! vai ter mais força de argumento e de vontade do que o professor – que em principio estudou muitos anos em grande parte das vezes cursou a Universidade, para decidir o que e como estudar; ora, senhores, falem serio, a verdade é que vocês são incompetentes e não conseguem ensinar aquilo que nem vocês sabem, simples assim. As inscrições para a turma de 2012/1 abrem em meio de fevereiro e a divulgamos pelos congrads e em todas as listas a que temos acesso; matriculem-se e se reciclem, antes que os seus alunos batam nas suas portas querendo satisfação e o dinheiro de volta. Inteligência – e transparência - em Música, já!