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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Resumo de aula do curso de Teoria, na Casa da Música - 3


Vamos ao resumo, então,

    Como o pessoal deve ter percebido - pelas caras no fim da aula acho que estamos mais pra sim do que pra não - consegui colocar na cachola de vocês a percepção do que é um acorde e do porque que ele faz sentido para o nosso cérebro. Já ganhamos nosso salário do dia ao conseguirmos nos movimentar pelos graus da escala - as mulheres um pouco melhor que os homens, e a ala OSPA dominando tudo; o pessoal do TOTROMVAA - Tocadores de Trombone de Vara Autônomos - está organizando uma revanche para a próxima aula. 

    Não tem truque nem mistério; a prática diaria de pensar os graus e praticar o acesso consecutivo e aleatório é uma baita exercício, lembrando que em 1º lugar, sempre, uma divisão por quatro, para qualquer pulsação que vocês usem pra exercitar a voz. Não sabermos o tamanho da nossa articulação mínima é fazer de conta que estamos estudando, e somos pessoas decididas, que se reunem no meio da semana, no meio da tarde, querendo uma relação mais seria e não mais lúdica. Aliás, até isso já é um troço meio estranho pra mim; por que que estudar, por que que uma visão intelectualizada do fazer musical tem que sempre carregar este estigma ruim de chato, de bossal, de pretensioso?
     Vejam o nosso caso, nunca tratamos nenhum conteúdo por sua matriz emocional, nunca abordamos nenhum único conteúdo usando qualquer tipo explicação subjetiva. Tratamos os conteúdos como se fôssemos ets que vieram para a Terra estudar o FENÔMENO da música, e somente por suas propriedades Físicas e os meios também físicos, de precisão e de equilíbrio, de entonação, e mesmo assim aparentamos estar nos divertindo muito durante o processo. Quero que vocês comecem a dividir comigo a responsabilidade de mostrar para as pessoas que não somente Teoria da Música é uma matéria interessante e instigadora quanto que ela é parte inseparavel do fazer musical, assim como saber o significado das palavras que usamos não é saber a Teoria da língua mas objetivamente saber 'a' língua. 
     Depois de alguns minutos de prática rítmica, em 2, em 3, e em 4, pelo menos, pratique o começo da escala Maior e o começo da Menor, e não subestimem os seus ouvidos; decorar o acesso aleatório das escalas - lembram que falei sobre decorar a melodia e ser capaz de acessar qualquer pedaço dela, algo que vocês já fizeram com muitissíssimas músicas que decoraram - é algo que se desenvolve em algumas semanas de prática, e já começar praticando a percepção das diferenças entre os dois modos é investimento pesado na capacitação do ouvido de vocês.
     Em relação aos acordes, demos passos importantes hoje, não somente porque sedimentamos mais um pouco a percepção de que o acorde é um fenômeno acústico mas também de que em termos de tonalidade, o acorde perfeito é formado por 3 sons somente. Dado o resultado de batimentos - soma das frequências - descobrimos que não é possível combinar mais de 3 graus de uma escala dada qualquer; esse fenômeno, certamente já conhecido desde a pré história, não foi usado desde sempre mas foi aos poucos sendo reconhecido e aceito até se impor, sobretudo aos ouvidos do mundo ocidental, como o tripé matemático sobre o qual organizamos a educação e formatação tonal de nosso ouvido. 
     Pra hoje não precisa mais, creio. Salientando que ao empilhar graus de uma escala dada alguns graus tem afinidade com outros graus; graus vizinhos batem muito as frequências, mesmo que em 8º diferentes, e esses batimentos irregulares nos dão a sensação de instabilidade, os graus mais distantes da tônica - este é outro nome para o 1º grau, os graus 4º e o 5º, são os mais estáveis - claro, por estarem longe - o batimento é numa velocidade muito diferente da tônica e para o nosso ouvido esse fenômeno soa regular, estável. Semana que vem solfejo ritmico, cantado e ainda vou começar oficialmente o conteúdo dos acordes. 
     Outra maneira de divulgar o blog; estou postando os resumos lá e vocês podem indicar o blog para quem quiser ler os resumos ou se informar mais sobre o Processo.
     Forte abraço e até quarta. Continuo esperando o email do pessoal da recuperação.    


Obrigado pelo privilégio, maior a cada dia, de dividir com vocês o pouco que sei.

Sérgio

terça-feira, 17 de abril de 2012

Resumo da primeira aula do curso de Teoria, na Casa da Música - 1


 Olá, pessoas!Vamos ao resumão.

    Aprendemos que nada no universo é mais importante que o ritmo. Nenhuma, absolutamente nenhuma instrução em música pode começar por outro tópico que não esse, sob o risco de ser um aprendizado apenas escrito ou abstrato mas de modo algum execucional; fazer música é fenomenologicamente, cronologicamente prioritariamente, organizar padrões de som - seja lá de que tipo, notas, palmas, tambor ou tampinhas de garrafa, não importa; "Muitos povos desconhecem a harmonia e os acordes, alguns não possuem nem sequer melodia, mas não existe povo, não existe cultura musical alguma que desconheça o ritmo". Nosso estudo do ritmo começa com exercícios de conscientização dos padrões matemáticos que o organizam, e o tema de casa é macerarmos o nosso pé de chinelo em padrões decrescentes, começando em 8 em cada mão, depois 7 e assim até chegarmos no 1 contra 1. Cuidado para não cometer o erro crasso de diminuir a velocidade das batidas conforme a quantidade delas diminui; o correto é apenas tirar, a cada mudança, uma das batidas, mas sempre com o mesmo andamento. Inverter a ordem do exercício e começar com 1 contra 1 e aumentar as batidas também é um exercício válido.

     Na parte da lógica, aprendemos que o som é formado de vibrações por segundo, vibração esta que vem de algum atrito, de algum contato mecânico entre dois objetos, ou ao menos pela pressão pneumática - de ar - sobre algum objeto. Este é o caso de nossas pregas vocais, por exemplo; quem 'toca' nelas não é uma coisa sólida mas sim o ar de nosso pulmão sendo empurrado, sob pressão de nossa musculatura diafragmática, literalmente, goela acima! o ar faz a prega vocal vibrar - se ela não estivesse presa sairia boca afora e seria um grande problema - e a vibração desloca moléculas de ar que deslocam outras moléculas de ar que por sua vez também deslocam mais outras moléculas de ar, até que este deslocamento de ar - entenda-se o ar feito de moléculas, né? -  chega nas moléculas que estão dentro do nosso ouvidinho, e se a fonte produtora for uma voz bonita, ficamos felizes. Se for uma voz de gralha como a minha, paciência, e pelo preço que está saindo, não reclamem, ora! Podemos medir as frequências pela velocidade de sua vibração, então quanto mais rápida a vibração, mais agudo será o som que ouviremos, e do contrário, quanto mais lenta for a vibração, mais grave o som. Lembrem  que nosso ouvido associa baixas frequências com sons esfarelados, rugosos, e algumas são tão lentas que podemos até contar quantas estamos ouvindo por segundo. Já as agudas são mais rápidas, e aos nossos ouvidos soam como lisas - como a Elisa no andar de cima! Aprendemos que uma vibração resulta na mesma nota se dobrarmos ou dividirmos ela ao meio. Por exemplo, LA é 440 vibrações por segundo, então o 220 será LA também, e o 110, e o 880 e assim por diante e para trás. É com essas referências de medida que começamos a montar o nosso cromatismo, lembram? a quantidade de partes em que dividimos a distância entre essa relação dobro/metade é algo que nosso cérebro constrói muito cedo em nossa vida, por isso que os indianos acham que temos poucas notas dentro de nosso cromatismo e os chineses acham que temos notas demais. A música ocidental, em parte por causa da Renascença e em parte por causa de uma herança da concepção escalar que o cristianismo nos deixou por meio da música litúrgica dos judeus - sim, o troço aqui fica meio complicado mesmo por isso já parei - acabou por nos cristalizar um cromatismo de 12 partes. Mas não vamos ficar tristes, que podemos fazer o diabo com essas 12, inclusive deliberadamente ignora-las, mas vamos caminhar primeiro, né? depois corremos...12 partes e tá tri bom por enquanto.

     Essas 12 notas em que partimos nosso cromatismo constituem nossos tijolinhos com os quais construímos tudo em Música, de Monteverdi passando por Bach até o funk carioca - ficaremos de cabelo em pé com a diversidade de coisa que podemos fazer com essa dúzia de tijolos. Portanto DECOREM ESTA TABELA DO CROMATISMO, para ontem, viu? são 12 notas, algums com 2 nomes, mas apenas 12.
    Para nos movermos dentro desta tabela, para que possamos fazer coisas legais com ela, precisamos usar algumas ferramentas, operadores como chamamos em nosso polígrafo, lembram? O primeiro operador é o de distância. Como é que vamos nos mover dentro desta tabela sem saber o quanto? se eu andar pra a casa do lado, aquela que está bem grudada na casinha onde eu estiver, eu digo que me movi um semitom, lembram do conceito? semitom é a menor distância possível entre 2 notas. casinha do lado! Mas posso também dar um passito maior e pular uma casa, daí tenho um tom de distância. O conceito é; tom é a menor distância possível entre 2 notas aceitando, porém, 1 e somente 1 nota intermediária. O tom pula 1 casa, só isso. O outro operador que usamos é o de sentido;  tom e semitom me dizem o quanto que eu ando, 1 casinha para o lado ou 2 casinhas, onde eu pulo 1 casa. Mas como é que eu decido para que lado eu vou ,ein?? posso ir para a esquerda, para o grave mas também posso ir para a direita, para o agudo. Como decidir, meu deus? simples;
o # - sustenido, não é jogo da velha, parem com isso - o sustenido é o sinal que eleva a altura da nota em um semitom. Não importa onde eu esteja, botei um sustenido na nota e ela imediatamente sobe 1 casinha PARA A DIREITA, PARA O AGUDO!
    Quando, porém, entretanto, outrossim, coloco um bemol - representado pela letra 'b' escrita em minúscula -  a nota desce a altura em um semitom. Tu viu que o sustenido e o bemol, que esses 2 operadores trabalham sempre com a distância de um semitom? guarda isso aí dentro que pode ser útil depois.
   Sabedores que somos dessas informações vamos adentrar no maravilhoso mundo das escalas. Mas o que é uma escala, caro leitor? Bom, lembra do cromatismo? vamos definir uma escala pelas propriedades mínimas que ela precisa ter.
    Primeiro, é do cromatismo, dos tijolinhos - entenda-se notas - que o cromatismo tem é que tiramos a nossa escala, portanto, podemos afirmar que uma escala é uma coleção de notas do cromatismo, simples assim. O cromatismo nos dá a materia prima para construir escalas; todas as que possamos imaginar e inventar, sempre, serão construídas usando  as notas do nosso cromatismo. Legal, já temos uma propriedade mínima para saber se um conjunto qualquer de notinhas que ouçamos ou toquemos ou escrevemos é ou não uma escala, mas tem outra propriedade que precisamos ter para realmente possuirmos uma escala que nos sirva pra fazer música; ELA TEM QUE COMEÇAR E TERMINAR NA MESMA NOTA. Não vamos nos confundir, pera aí! não é beeem a mesma nota, nós já sabemos disso, e o modo mais correto, mais preciso de definir esta propriedade é dizer que uma escala é uma coleção de graus do cromatismo entre uma nota qualquer que escolhermos e o seu dobro/metade de vibrações.
     Lembram do que vimos na aula? eu parti nota dó e fui subindo, para o agudo, para a direita no cromatismo, sempre me movendo um tom, foi ou não foi? pois então, se esse padrão de distância entre os graus terminar na mesma nota em que começou, isso resulta que nossa escala é perfeita. Ou  esqueceste que eu acabei de dizer que uma escala tem que começar e terminar na mesma nota? se eu começar em dó e me mover um tom de cada vez vai ficar assim: 

 dó -re - mi- fa# - sol# - la# - dó 

entendeu? então pensa comigo; se eu mudar o padrão de distância entre os graus vou ter diferentes tipos de escala. Olha o que acontece se eu andar sempre um tom e um semitom de cada vez - dá pra pensar que pulamos 2 casas, mas eu nã penso assim, não - se eu andar um tom e um semitom, fica desse jeito a minha escala;
 do - mib - fa# - la - do
 chamamos essa escala de diminuta. Mais adiante vamos enteder o que significa diminuto em linguagem musical, espera só.
 Para dominarmos as fórmulas, e também porque essa escala é muito usada em música, tipo, muito mesmo, a próxima escala que iremos fazer é a Maior - dizemos escala Maior. Esta escala está descrita bem detalhadamente no polígrafo, na próxima aula vemos o que resultou a explicação de aula mais a leitura do polígrafo.
 Forte abraço a todos; é um privilégio dividir com vocês o pouco que sei.

 Sérgio Nardes

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Afinação e Desafinação (1)


      Em música acontecem coisas bizarras. Quando digo em música, quero dizer no que as pessoas entendem por música, no que essa palavra e a atividade que ela rotula significam para o grosso das pessoas. Por mais inacreditavel que seja, o maior problema que enfrento para ensinar é fazer o aluno perceber que não é difícil e que não é preciso nenhum talento especial, nenhuma capacidade sobre humana para que possamos estudar e aprender música; meus pre-requisitos atualmente são estar alfabetizado e conseguir manter o tronco reto. Mas por culpa de uma compreensão distorcida do que é fundamentalmente – e antes de tudo – saber música, centenas de milhares de pessoas deixam de aprender. O triste dessa situação pedagógica é que essa má educação, essa má compreensão do fazer musical age como um vírus; leio coisas absurdas como um curso de técnica vocal que em sua divulgação fala que o que importa não é a afinação real mas sim sua afinação interna! É assustador. Estamos – eu ao menos e o leitor que está agora considerando isso acreditando que afinação, no mínimo deve ser algo objetivamente passível de medir, de verificar melhora ou piora de resultado. Só isto de verificar já é um troço estranhíssimo para mim, porque não se ensina afinação como se ensina uma música, não existe isso de mais ou menos afinado de afinado numa música e em outra não, de afinado nos graves mas não nos agudos, mas somente entender ou não entender o que é afinação, no violino, no tambor, na nossa voz e mesmo no ventilador de teto da tua casa.
    Afinação é um fenômeno físico, e essa conversa fiada – me desculpem a rugosidade do texto mas não acho outro adjetivo ao mesmo tempo claro e ameno para isso – de que afinação é algo que se constrói com relaxamento, com uma vivência interior do canto se expandindo e ocupando lugar dentro de nós,cara é mistificar e traduzir fenômenos físicos em termos idiossincráticos, subjetivos e completamente equivocados, como geralmente acontece com qualquer tentativa de estabelecer conhecimento de maneira subjetiva que prescinda de verificação. Não estou preocupado se é possível produzir resultado vocal em alguém com esse procedimento, e sei perfeitamente que existem pessoas que são tão musicais que aprendem até mesmo vendo pela televisão e ouvindo radio. Estou preocupado em delimitar o que é preciso, com o mínimo de confusão conceitual e o máximo de aproveitamento de instrução e tempo, para que o máximo possível de pessoas possa entender o máximo possível de música.
    Especificamente no caso do canto, a picaretagem é tal que só a consigo comparar com a que viceja no meio religioso; os professores ficam repetindo escalas e mais escalas e afundando seus alunos em questões de timbre e registro que só servem para produzir imitadores. Ninguém consegue manipular timbre, ninguém consegue ler, ninguém consegue improvisar mas todos têm um enorme cabedal de posições estéticas e técnicas do fulano e do cicrano, citação de escolas estéticas, orientação de ene professores; apesar de não oferecer resultado palpavel, por causa de uma industria pseudointelectual de ensino é passada e repassado, este modelo, como mais um de uma longa lista de remédios caseiros que não funcionam, mas que são rapidamente substituídos por outros e outros e outros. Ensino qualquer um a afinar a própria voz em poucos minutos, não importando o histórico que esta pessoa tem como aluno e nem a opinião que ela ou outro professor tenha dado anteriormente. E na verdade, geralmente já ensino o cantor a afinar mais do que o grosso das pessoas que não estuda música. O truque? Nenhum, apenas, em vez de experimentos corporais sobre ressonância e timbre e outras bobagens, pura e simplesmente convido o aluno a pensar e perceber o fenômeno do som. Ainda não encontrei nenhum ser humano – quem nasce com amusia é diferente porque é uma causa biológica e não entra no exemplo – que escute e seja desafinado, entendendo desafinado aqui como a pessoa que não consegue cantar ou emitir uma nota afinada com outra ou com algum centro tonal interno. Aliás, esse é um dos grande erros que os professores cometem; eles pressupoem que o aluno já sabe o que é afinar - como no estudo do ritmo, cometem o mesmo erro, pressupondo que o aluno já saiba dividir -  e que o seu trabalho é apenas fazê-lo cantar mais agudo e mais grave. Pergunte para alguém bastante afinado como é que ele explica a sua afinação e verás como é difícil, mesmo para quem é afinado, descrever o fenômeno. Quando este é entendido, o afinado e o desafinado estão em condições de igualdade para estudar, e com o passar do tempo e com um mínimo de estudo, pessoas que começam a instrução sem conseguir emitir nem uma única nota com constância e volume se nivelam com outros que sempre foram afinados. Respeito ao estudante de canto e caça aos picaretas da música. toca!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Trabalhar com o que se tem (2)


             Dia 28 de março último, comecei um novo semestre do Curso de Teoria Musical. Os alunos desta nova turma têm um perfil algo diferente dos que cursaram outros semestres, e acho que isso aconteceu porque o curso está no 3º ano consecutivo e evidentemente o tempo é poderosa ferramenta de verificação de resultados e de divulgação destes – a afluência aumenta se o resultado e a divulgação forem positivos – e também porque abri uma turma num lugar mais perto do centro da cidade. Uma outra razão foi que desta vez fiz a divulgação sem ajuda de outros parceiros e deliberadamente enviei emails para instituições diretamente ligadas ao fazer musical, tanto de performance, como foi o caso da OSPA, quanto de educação, e nisto incluí uma serie de escolas, secretarias de educação e de cultura, além de ONG's ligadas de alguma maneira com a educação musical. Entre os alunos tenho cantores de coro – um público que até agora eu não havia conseguido atingir e que é de grande interesse para divulgar o Processo – uma das alunas canta a 27 anos em coral, e é o fim da picada que em quase 3 décadas esta pessoa em nenhum instante tenha caído na mão de um profissional que a ensinasse teoria, ou ao menos a ler música. Pessoas como esta aluna deveriam ganhar uma bolsa de estudo em função do tempo dedicado à música, sobretudo se pensarmos que certamente ela nunca ganhou um centavo para cantar em nenhum dos coros dos quais participou. Regentes de coro neste caso são os burros da vez, porque não se dão conta de que uma pessoa assim, focada e constante mesmo sem instrução formal, multiplicaria por cem o seu próprio resultado e o de outros cantores se fosse ensinada, se fosse instruída, mesmo que sumariamente.
                O regente de coro, grosso modo, pensa como um criador de gado, tratando o cantor como um boi que sempre pode ser substituído - desde que consiga cantar uma escala afinado e bater palmas dentro de uma pulsação, o resto fica de lado. Se eu estiver desatualizado, por favor me contem que terei o maior prazer em divulgar, não só aqui mas com todos os meus alunos e em todos os trabalhos que realizo, mas que eu saiba, só existe um coro em Porto Alegre onde o respectivo regente entende o cantor como um investimento técnico de médio e longo prazo, e não deve ser gratuito que o resultado deste grupo seja tão abissalmente superior a todo o resto da produção vocal da Capital. Fico pensando se o fato deste regente ter-se formado fora da cena de Poa também não ser também parte da questão...
                Tenho entre meus alunos também gente envolvida com o lecionar música, musicistas de 2 décadas de estrada atrás de si, e é explicito, é dado no convívio com essa gente que existe entre eles forte disposição a ajudar o outro, a dividir conhecimento com o outro; o Processo a cada dia que passa se torna mais e mais um modelo viral de disseminação de conhecimento, e já consigo vislumbrar, ao longe mas visível, o momento em que ele se mova, em que ele caminhe sem precisar de mim; o fato de minha divulgação atrair justamente este perfil de aluno/professor me enche de alegria e evidencia, para mim, a matriz viral do Processo. O conhecimento não é propriedade intelectual de ninguém, não é verdade? Infelizmente, em música, o normal é o modelo macaquinho. Com o perdão dos meus primos macacos, o que mais vejo na cena de Poa são professores que ensinam os seus alunos a imitar, a imitar e a imitar ao infinito; é evidente que  neste caso o professor é só um macaco mais velho e mais experimentado na ‘arte’ de imitar. O conhecimento em música que ofereço com o Processo é 100%  matemático –  e portanto verificável – e o que é mais legal, caro leitor, 100% livre.
                Quarta que vem, novamente alegria em meu coração, pontualmente as 13 horas. Forte abraço! 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Impossível ensinar o que não se sabe, simples assim!


    O Processo Nardes, numa parceria com a Ufrgs, mais exatamente com o Colégio de Aplicação,  mantem no Campus do Vale um curso regular de Teoria Musical que acredito ser o único no Estado funcionando nestes termos; a prática é derivada de uma compreensão epstemológica do que é Música. No último semestre, abrimos 30 vagas e recebemos mais de 500 inscrições, de gente das graduações, de alunos do Aplicação, de pessoas da Federal de Santa Maria e de Pelotas e até uma menina de Ijuí, que não veio porque Ijuí é longe pacas de Porto Alegre..
                Me impressiona sobretudo dois aspectos  do perfil e interesse destes inscritos – só conseguimos atender os 30 que prometemos, por falta de espaço e logística de tempo. O primeiro aspecto é que existe uma demanda imensa por educação musical. Alunos de 12 anos e alunos de 70, universitários e gente já formada e gente de pouca instrução, gente com grana e sem grana – o curso funciona com uma contribuição de 10 reais/mês, que fica com o Aplicação para uso geral da escola; o Processo ministra este curso sem ganho algum – enfim, não existe um perfil definido de aluno mas sim, creio eu, um interesse comum em aprender. 
                O segundo aspecto que me chama a atenção é que alunos que já fizeram aula de Música antes de tomar conhecimento do Processo se impressionam muito mais com as aulas do que aqueles que nunca tiveram nenhuma instrução prévia em Música. Me pergunto então; não deveria ser o contrario? Aqueles que já têm algum conhecimento deveriam entender mais rápido o que digo, ensino e demonstro não é? E os leigos, os néscios, os  que se iniciam na Música pelas mãos do Processo é que deveriam não digo nem se deslumbrar mas demonstrar surpresa ou aquele olhar brilhante de quem está finalmente entendendo alguma coisa importante e até aquele momento desconhecida. Por estranho que pareça, não é isso que acontece, não.
                 Para quem parte do zero absoluto tudo é normal; os alunos iniciantes se impressionam sim, mas não com os Protocolos de Acento – nome de um de nossos três eixos de exercício – mas com a percepção de que a Música está acontecendo em suas mentes e que aquilo que eles querem aprender lhes está sendo ensinado; aprender o fazer musical. Já os que chegaram até nós depois de uma instrução prévia, em 100% das vezes ficam primeiro desconfiados, e conforme lhes ensino e desenvolvo os primeiros exercicios, por força das evidências demonstradas em aula, começam a me dar um pouco de crédito, e depois vem o que os alunos veteranos do Processo chamam de ressaca; o momento em que o aluno começa a pensar no porque tais e tais professores não lhes ensinaram isso e aquilo, e porque não lhes disseram que era assim tão mais fácil, tão mais simples, e porque tais e tais professores contaram tantas mentiras e distorções em vez de simplesmente admitirem que não sabiam explicar ou, como realmente é muito comum no meio musical, por que o professor não disse que sabia fazer mas que não sabia explicar.
                Em termos de conhecimento objetivo, verificavel, o saber fazer não é saber, isso porque para mim, Sérgio Nardes, se cada aluno não for capaz de replicar o que sabe, isso significa que fracassei como professor; só se professa aquilo que se acredita, e só se acredita naquilo que se sabe, ou não? ou alguém aí acredita em algo que não sabe? Pois é... O aluno é alguém especial, o aluno que está querendo, se dispondo e se colocando em minhas mãos para aprender Música é um tesouro, é uma jóia, é uma força querendo se manifestar, o aluno de Música, para mim, é a coisa mais importante do mundo, e ensinar Música é o que dá sentido a minha vida, e não entendo a falta de paixão destes professores que em vez de colegas, de outros musicistas com eles mesmos, formam copiadores, formam macaquinhos que repetem e repetem e repetem, sem nunca serem sabedores, senhores do fazer musical que lá atrás, no seu primeiro movimento de procurar aula, queriam ser.
                A estes professores, quero dizer que a culpa é SEMPRE de vocês. O aluno nunca é culpado, e se ele – o aluno - levanta a bunda sai de casa para ter aula, só isso, somente este pequeno movimento, este pequeno empenho de energia, isso é tudo o que é preciso para fazê-lo aprender. Vou repetir para que não haja dúvida sobre a minha posição; o mau aluno é sempre culpa do seu professor, sempre, sempre, sempre. Alguns professores tentam se defender dizendo que não dá pra ensinar mais seriamente para um aluno que já chega em aula querendo tocar esta ou aquela música, ou que o aluno já chega em aula querendo tocar músicas e não estudar técnica. Mas essa afirmação é de uma estupidez exemplar, porque pressupoe que o aluno – que chega em aula sem saber o que é música e sem saber como se aprende e sem saber do que a Música é feita, sem saber nada, caralho, afinal é por isso que ele está na tua frente querendo aprender! vai ter mais força de argumento e de vontade do que o professor – que em principio estudou muitos anos em grande parte das vezes cursou a Universidade, para decidir o que e como estudar; ora, senhores, falem serio, a verdade é que vocês são incompetentes e não conseguem ensinar aquilo que nem vocês sabem, simples assim. As inscrições para a turma de 2012/1 abrem em meio de fevereiro e a divulgamos pelos congrads e em todas as listas a que temos acesso; matriculem-se e se reciclem, antes que os seus alunos batam nas suas portas querendo satisfação e o dinheiro de volta. Inteligência – e transparência - em Música, já!