sexta-feira, 27 de abril de 2012

    Senhores, Porto Alegre é uma cidade estranha. Em termos de instrução musical, existe picaretagem para todos os gostos, desde o modelo escolinha de música, onde nossas crianças e às vezes nós mesmos somos não ensinados mas adestrados para repetir as peças que o professor nos ensina - isso quando é uma peça e não algo ainda pior, como um simples trecho de música, um verdadeiro horror; crianças e jovens inteligentes e capazes sendo tratados como imbecis - até os pica fumos que não sabem o que fazer com o instrumento mas já estão ministrando aula. O que leva o picareta a gastar mais tempo construindo sua picaretagem do que estudando e realmente aprendendo alguma coisa é assunto para outra postagem. Preciso hoje escrever sobre o maior de todos eles, o picareta mor de Porto Alegre, e preciso fazer isso porque ouvi uma aula dele ontem - temos um aluno em comum que gravou uma aula com ele e mostrou-me - que me impressionou muito. 
    Já vi gente ruim e gente boa trabalhando, alguns só hoje vejo o quanto eram bons no seu trabalho, ou ruins mesmo que não sabendo que o eram. Uma vez, numa Oficina em Curitiba, isso em 1997, a Mara Campos, durante o ensaio de uma peça do Osvaldo Lacerda chamada Provérbios, parou e disse que precisava estudar a peça, pediu desculpa aos alunos presentes e passamos para outra música. A peça que ela parou porque não conseguiu ler era apenas falada, sem entonação, e o Osvaldo fez o diabo com o texto, montando uma fuga à 4 vozes apenas com a estrutura rítmica, que era bem complicado de fazer funcionar. No outro dia ela chegou no ensaio com a peça decorada, todas as vozes. Até hoje tenho isso como um exemplo duplo. Primeiro de honestidade; ela disse com todas as letras que precisava parar porque tinha que estudar, mostrando que não tinha nenhum medo, nenhum problema em admitir que não sabia, e segundo pela sua capacidade de estudo, de foco e constância, e até um terceiro exemplo, que é o de entender que moralmente seria muito útil aos seus alunos, ver que ela se esforçou além de estudar o que se propôs, e internalizou todo o conteúdo. Não tem muita coisa dela na net mas é uma ensaiadora muito capaz e com um domínio rítmico muito apurado e o gestual claro de quem tem o clic na cabeça. 
    Outra vez, num ensaio onde um jovem e inexperiente regente coral tentava fazer um Agnus Dei do Hassler - um em F Maior - funcionar, deu-se o oposto. O desgraçadinho do guri era tão ruim (mas tão ruim) que não entendia nem que na peça em questão era fundamental pensar em 2 e não em 4 como ele estava fazendo. O resultado era que a peça soava muito rápida, muito magra na sua divisão e sem o sustain que é tão característico do período. As pessoas são leigas e não se dão conta, e o regente esse, parecia também não ter a menor idéia do tamanho do erro, e testemunhei muitas apresentações dele e do seu coro cantando o Hassler errado. Houve uma ocasião em que uma regente vaio cantar com eles - ela apresentou-se com o seu coro no mesmo evento e, sabendo que o coro do regente esse cantava a peça, veio cantar junto, a coitadinha - e a expressão dela durante a execução era de desconforto extremo, como se ela dissesse, meu deus, o que foi que eu vim fazer aqui, por que isso, por que comigo? o que foi que eu fiz? O regente imbecil, este, a propósito, era eu.
   Mas eu comecei dizendo que Porto Alegre é uma cidade estranha; os picaretas da instrução musical aqui de Porto Alegre também são médiuns. Sim, senhoras e senhores, os picaretas da instrução musical aqui na capital dos gaúchos são guiados na sua forma de lecionar Música por nada mais e nada menos do que espíritos desencarnados! o professor este, figura arqui conhecida da cena, "trabalha" do seguinte modo; seus alunos mais destacados são os que conseguem imitar mais exatamente o que ele próprio faz. De fato, existem pessoas que conseguem imitar muito bem o que ouvem, e é um grande erro subestimar nossa capacidade de mimetizar o que ouvimos, mas isso, no meu entendimento, não é saber, não é aprender, não é conseguir manipular a informação, o conhecimento, os modelos técnicos, as sensações fisiológicas do processo de cantar. Sim, falo de um professor de canto. Evidentemente um professor que trabalha assim  tem todo o interesse em mostrar o canto como algo extremamente difícil, apreensível somente por meios subjetivos e que, claro, somente ele, o professor, detêm.  A Merda disso é que um jovem sem experiência de ouvir cantores e sem nenhum referencial externo realmente acredita que este falsário realmente sabe de alguma coisa além de cantar alto - na boa ele nem ao menos é um bom cantor, não tem cultura de repertório nenhuma e de maneira parecida com as bandas de música pop dos 70 e 80, vive repetindo as mesmas árias de ópera, a mesma micagem de agudos - ele chega a fazer de conta que não alcança as notas para depois canta-las na altura. Jamais, no entanto, ouvi falar de ele se envolver seriamente em nenhuma récita que não seja uma sequência de clichês. Gente assim macula a formação, o ouvido crítico de nossos jovens, gente assim é um desserviço para a formação musical de nosso estado - não é atoa que estudando com pessoas como ele, o RS conte nos dedos os cantores que são expoentes nacionais e internacionais. E, quando o cantor não consegue imitar o seu vocalize, ele para, finge ouvir uma voz de espírito - isso é serio, eu ouvi a gravação e dá pra escutar ele murmurando, falando sozinho, e diz - repetindo a opinião do espírito - que o cantor não entende o que ele ensina, que o que ele está ensinando serve para o Pavarotti, para a Callas, mas que o cantor, no caso um jovem de 22 anos, não entende. É isso, esse imbecil desconsidera o quanto o aluno leva a sério uma coisa destas, este imbecil desconsidera o quanto ele é responsável pela formação deste jovem. Gente assim não pode acontecer mais, culturalmente, pessoas assim são um tumor cultural;   Cidadão Imbecil na Décima Potência.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Resumo de aula do curso de Teoria, na Casa da Música - 3


Vamos ao resumo, então,

    Como o pessoal deve ter percebido - pelas caras no fim da aula acho que estamos mais pra sim do que pra não - consegui colocar na cachola de vocês a percepção do que é um acorde e do porque que ele faz sentido para o nosso cérebro. Já ganhamos nosso salário do dia ao conseguirmos nos movimentar pelos graus da escala - as mulheres um pouco melhor que os homens, e a ala OSPA dominando tudo; o pessoal do TOTROMVAA - Tocadores de Trombone de Vara Autônomos - está organizando uma revanche para a próxima aula. 

    Não tem truque nem mistério; a prática diaria de pensar os graus e praticar o acesso consecutivo e aleatório é uma baita exercício, lembrando que em 1º lugar, sempre, uma divisão por quatro, para qualquer pulsação que vocês usem pra exercitar a voz. Não sabermos o tamanho da nossa articulação mínima é fazer de conta que estamos estudando, e somos pessoas decididas, que se reunem no meio da semana, no meio da tarde, querendo uma relação mais seria e não mais lúdica. Aliás, até isso já é um troço meio estranho pra mim; por que que estudar, por que que uma visão intelectualizada do fazer musical tem que sempre carregar este estigma ruim de chato, de bossal, de pretensioso?
     Vejam o nosso caso, nunca tratamos nenhum conteúdo por sua matriz emocional, nunca abordamos nenhum único conteúdo usando qualquer tipo explicação subjetiva. Tratamos os conteúdos como se fôssemos ets que vieram para a Terra estudar o FENÔMENO da música, e somente por suas propriedades Físicas e os meios também físicos, de precisão e de equilíbrio, de entonação, e mesmo assim aparentamos estar nos divertindo muito durante o processo. Quero que vocês comecem a dividir comigo a responsabilidade de mostrar para as pessoas que não somente Teoria da Música é uma matéria interessante e instigadora quanto que ela é parte inseparavel do fazer musical, assim como saber o significado das palavras que usamos não é saber a Teoria da língua mas objetivamente saber 'a' língua. 
     Depois de alguns minutos de prática rítmica, em 2, em 3, e em 4, pelo menos, pratique o começo da escala Maior e o começo da Menor, e não subestimem os seus ouvidos; decorar o acesso aleatório das escalas - lembram que falei sobre decorar a melodia e ser capaz de acessar qualquer pedaço dela, algo que vocês já fizeram com muitissíssimas músicas que decoraram - é algo que se desenvolve em algumas semanas de prática, e já começar praticando a percepção das diferenças entre os dois modos é investimento pesado na capacitação do ouvido de vocês.
     Em relação aos acordes, demos passos importantes hoje, não somente porque sedimentamos mais um pouco a percepção de que o acorde é um fenômeno acústico mas também de que em termos de tonalidade, o acorde perfeito é formado por 3 sons somente. Dado o resultado de batimentos - soma das frequências - descobrimos que não é possível combinar mais de 3 graus de uma escala dada qualquer; esse fenômeno, certamente já conhecido desde a pré história, não foi usado desde sempre mas foi aos poucos sendo reconhecido e aceito até se impor, sobretudo aos ouvidos do mundo ocidental, como o tripé matemático sobre o qual organizamos a educação e formatação tonal de nosso ouvido. 
     Pra hoje não precisa mais, creio. Salientando que ao empilhar graus de uma escala dada alguns graus tem afinidade com outros graus; graus vizinhos batem muito as frequências, mesmo que em 8º diferentes, e esses batimentos irregulares nos dão a sensação de instabilidade, os graus mais distantes da tônica - este é outro nome para o 1º grau, os graus 4º e o 5º, são os mais estáveis - claro, por estarem longe - o batimento é numa velocidade muito diferente da tônica e para o nosso ouvido esse fenômeno soa regular, estável. Semana que vem solfejo ritmico, cantado e ainda vou começar oficialmente o conteúdo dos acordes. 
     Outra maneira de divulgar o blog; estou postando os resumos lá e vocês podem indicar o blog para quem quiser ler os resumos ou se informar mais sobre o Processo.
     Forte abraço e até quarta. Continuo esperando o email do pessoal da recuperação.    


Obrigado pelo privilégio, maior a cada dia, de dividir com vocês o pouco que sei.

Sérgio

terça-feira, 17 de abril de 2012

Resumo da primeira aula do curso de Teoria, na Casa da Música - 2

Vamos lá 




    A parte dos acordes primeiro. Para mostrar acordes - que em sua concepção mais genérica são formados por 3 ou mais sons - precisamos antes saber montar escalas, e não tem reza e nem santo que te ajude nisso, tem que exercitar portanto não venha com essa história de ficar triste porque não entendeu os acordes; nem fizemos exercícios deles ainda, ora! estou brincando mas tem um fundo de verdade, e o que falei sobre acordes foi com a intenção de fazer uma primeira abordagem do tema e não de realmente esgotar a matéria. Na próxima aula o conteúdo será dissecado, e claro, estou imaginando que o povo está lendo o polígrafo. 
    Bom, repassando, sabemos que as escalas mais usadas são a Maior e a Menor - a Pentatônica, aquela de cinco graus vai entrar mais adiante - cada uma formada por uma padrão misto de tom e semitom entre os seus graus, certo? Estou falando só da Maior e da Menor, não esqueçam. Vamos pensar um pouco; sabemos que uma escala é uma coleção de graus do cromatismo, coleção esta que montamos a partir do padrão de distância que estabelecermos entre estes graus. Em uma escala por tons, por exemplo, usamos um único padrão de distância, que foi o Tom, por isso o nome da escala, entenderam? (!) quando depois estudamos as escalas Maiores, vimos que o padrão pode ser misto, e tanto é assim que é na escala Maior que encontramos semitons entre o 3º e o 4º e entre o 7º e o 8º graus. Padrão misto, taí, ó! tô falando que tem! 
    Na escala Menor também encontramos semitons em 2 lugares, só que não nos mesmos que na escala Maior, lembram? na Menor os semitons estão entre o 2 e o 3º e entre o 5º e o 6º, mas isto todo mundo já aprendeu á muitos séculos atrás, na aula retrasada. 
     Bom, de novidade mesmo, o que tivemos na última aula foi descobrir que não é só no papel que a matemática das escalas funciona; nosso ouvido - entenda-se cérebro - desenvolveu outras maneiras de calcular, e é dessa outra forma que nossa mente organiza e calcula nossa percepção tonal; aquilo que vulgarmente chamamos de capacidade musical. O termo é uma bobagem biológica mas abordo isso em um outro texto. Vimos que o lugar, a nota, o grau que escolhemos como primeiro sempre é o que sonoramente mais atrai nosso ouvido, e para provar isto basta tocar a escala em questão em qualquer instrumento e fica claro, mesmo em crianças menores de 10 anos - pela minha experiência, pelo menos - que as pessoas sabem qual é a nota mais fundamental, aquela que para nosso ouvido resolve a escala, e que é a mesma que para nossa matemática, para nossa lógica da música é o primeiro grau! Vejam que coisa fantástica, mesmo antes de aprender a calcular no papel, nosso cérebro já calcula - com resultados auditivos e não notacionais - nos informando onde é que começa e onde é que termina o padrão de distâncias; isso para mim é algo assombroso. 
    Vocês, com o decorrer do curso e o incremento da capacidade de interagir com os conteúdos, verão que muitas coisas, que muitos fenômenos que iremos estudar e sobre os quais faremos experiências são sensações já familiares a cada um; muitos de vocês já 'ouvem' acordes, trechos de escalas e dissonâncias - acontece até de não se gostar de determinado fenômeno, é muito comum ouvir gente dizendo que não gosta de dissonância, por exemplo - muitos de vocês irão apenas dar nomes e aprender a calcular notacionalmente com fenômenos que já conhecem e reconhecem quando escutam, mesmo não sendo capazes ainda de os nomear e conceituar. É legal ser humano, né?
    Pois é, nosso ouvido nos ajuda a entender o fenômeno sonoro nos mostrando marcas sonoras de atração para cada grau. ja sabemos que o primeiro é o mais fortão de todos, ele é o grau que sempre puxa, feito um ímã sonoro não importando em que grau nós estejamos. O primeiro grau é o mais poderoso de todos os 7. E será deste primeiro grau, do suporte tonal que ele dá ao nosso ouvido que começaremos a encontrar, a desenvolver e praticar, calcular mesmo, todos os outros 6. 

    Não se esqueçam de ler os textos. É uma maneira simples de vocês se inteirarem com o que estamos fazendo no Processo - além de uma mãozona para nos ajudar a crescer. Nossa missão é propor um modelo de aprendizado de música que seja rápido e pleno, sem estilos e nem esoterismo de nenhum tipo, sem aquela conversa de talento e dom. Sem a separação entre cantor e musicista, sem separação entre erudito e popular. Apenas música.

Forte abraço é obrigado por me permitir dividir com vocês o pouco que sei.


Sérgio Nardes

Resumo da primeira aula do curso de Teoria, na Casa da Música - 1


 Olá, pessoas!Vamos ao resumão.

    Aprendemos que nada no universo é mais importante que o ritmo. Nenhuma, absolutamente nenhuma instrução em música pode começar por outro tópico que não esse, sob o risco de ser um aprendizado apenas escrito ou abstrato mas de modo algum execucional; fazer música é fenomenologicamente, cronologicamente prioritariamente, organizar padrões de som - seja lá de que tipo, notas, palmas, tambor ou tampinhas de garrafa, não importa; "Muitos povos desconhecem a harmonia e os acordes, alguns não possuem nem sequer melodia, mas não existe povo, não existe cultura musical alguma que desconheça o ritmo". Nosso estudo do ritmo começa com exercícios de conscientização dos padrões matemáticos que o organizam, e o tema de casa é macerarmos o nosso pé de chinelo em padrões decrescentes, começando em 8 em cada mão, depois 7 e assim até chegarmos no 1 contra 1. Cuidado para não cometer o erro crasso de diminuir a velocidade das batidas conforme a quantidade delas diminui; o correto é apenas tirar, a cada mudança, uma das batidas, mas sempre com o mesmo andamento. Inverter a ordem do exercício e começar com 1 contra 1 e aumentar as batidas também é um exercício válido.

     Na parte da lógica, aprendemos que o som é formado de vibrações por segundo, vibração esta que vem de algum atrito, de algum contato mecânico entre dois objetos, ou ao menos pela pressão pneumática - de ar - sobre algum objeto. Este é o caso de nossas pregas vocais, por exemplo; quem 'toca' nelas não é uma coisa sólida mas sim o ar de nosso pulmão sendo empurrado, sob pressão de nossa musculatura diafragmática, literalmente, goela acima! o ar faz a prega vocal vibrar - se ela não estivesse presa sairia boca afora e seria um grande problema - e a vibração desloca moléculas de ar que deslocam outras moléculas de ar que por sua vez também deslocam mais outras moléculas de ar, até que este deslocamento de ar - entenda-se o ar feito de moléculas, né? -  chega nas moléculas que estão dentro do nosso ouvidinho, e se a fonte produtora for uma voz bonita, ficamos felizes. Se for uma voz de gralha como a minha, paciência, e pelo preço que está saindo, não reclamem, ora! Podemos medir as frequências pela velocidade de sua vibração, então quanto mais rápida a vibração, mais agudo será o som que ouviremos, e do contrário, quanto mais lenta for a vibração, mais grave o som. Lembrem  que nosso ouvido associa baixas frequências com sons esfarelados, rugosos, e algumas são tão lentas que podemos até contar quantas estamos ouvindo por segundo. Já as agudas são mais rápidas, e aos nossos ouvidos soam como lisas - como a Elisa no andar de cima! Aprendemos que uma vibração resulta na mesma nota se dobrarmos ou dividirmos ela ao meio. Por exemplo, LA é 440 vibrações por segundo, então o 220 será LA também, e o 110, e o 880 e assim por diante e para trás. É com essas referências de medida que começamos a montar o nosso cromatismo, lembram? a quantidade de partes em que dividimos a distância entre essa relação dobro/metade é algo que nosso cérebro constrói muito cedo em nossa vida, por isso que os indianos acham que temos poucas notas dentro de nosso cromatismo e os chineses acham que temos notas demais. A música ocidental, em parte por causa da Renascença e em parte por causa de uma herança da concepção escalar que o cristianismo nos deixou por meio da música litúrgica dos judeus - sim, o troço aqui fica meio complicado mesmo por isso já parei - acabou por nos cristalizar um cromatismo de 12 partes. Mas não vamos ficar tristes, que podemos fazer o diabo com essas 12, inclusive deliberadamente ignora-las, mas vamos caminhar primeiro, né? depois corremos...12 partes e tá tri bom por enquanto.

     Essas 12 notas em que partimos nosso cromatismo constituem nossos tijolinhos com os quais construímos tudo em Música, de Monteverdi passando por Bach até o funk carioca - ficaremos de cabelo em pé com a diversidade de coisa que podemos fazer com essa dúzia de tijolos. Portanto DECOREM ESTA TABELA DO CROMATISMO, para ontem, viu? são 12 notas, algums com 2 nomes, mas apenas 12.
    Para nos movermos dentro desta tabela, para que possamos fazer coisas legais com ela, precisamos usar algumas ferramentas, operadores como chamamos em nosso polígrafo, lembram? O primeiro operador é o de distância. Como é que vamos nos mover dentro desta tabela sem saber o quanto? se eu andar pra a casa do lado, aquela que está bem grudada na casinha onde eu estiver, eu digo que me movi um semitom, lembram do conceito? semitom é a menor distância possível entre 2 notas. casinha do lado! Mas posso também dar um passito maior e pular uma casa, daí tenho um tom de distância. O conceito é; tom é a menor distância possível entre 2 notas aceitando, porém, 1 e somente 1 nota intermediária. O tom pula 1 casa, só isso. O outro operador que usamos é o de sentido;  tom e semitom me dizem o quanto que eu ando, 1 casinha para o lado ou 2 casinhas, onde eu pulo 1 casa. Mas como é que eu decido para que lado eu vou ,ein?? posso ir para a esquerda, para o grave mas também posso ir para a direita, para o agudo. Como decidir, meu deus? simples;
o # - sustenido, não é jogo da velha, parem com isso - o sustenido é o sinal que eleva a altura da nota em um semitom. Não importa onde eu esteja, botei um sustenido na nota e ela imediatamente sobe 1 casinha PARA A DIREITA, PARA O AGUDO!
    Quando, porém, entretanto, outrossim, coloco um bemol - representado pela letra 'b' escrita em minúscula -  a nota desce a altura em um semitom. Tu viu que o sustenido e o bemol, que esses 2 operadores trabalham sempre com a distância de um semitom? guarda isso aí dentro que pode ser útil depois.
   Sabedores que somos dessas informações vamos adentrar no maravilhoso mundo das escalas. Mas o que é uma escala, caro leitor? Bom, lembra do cromatismo? vamos definir uma escala pelas propriedades mínimas que ela precisa ter.
    Primeiro, é do cromatismo, dos tijolinhos - entenda-se notas - que o cromatismo tem é que tiramos a nossa escala, portanto, podemos afirmar que uma escala é uma coleção de notas do cromatismo, simples assim. O cromatismo nos dá a materia prima para construir escalas; todas as que possamos imaginar e inventar, sempre, serão construídas usando  as notas do nosso cromatismo. Legal, já temos uma propriedade mínima para saber se um conjunto qualquer de notinhas que ouçamos ou toquemos ou escrevemos é ou não uma escala, mas tem outra propriedade que precisamos ter para realmente possuirmos uma escala que nos sirva pra fazer música; ELA TEM QUE COMEÇAR E TERMINAR NA MESMA NOTA. Não vamos nos confundir, pera aí! não é beeem a mesma nota, nós já sabemos disso, e o modo mais correto, mais preciso de definir esta propriedade é dizer que uma escala é uma coleção de graus do cromatismo entre uma nota qualquer que escolhermos e o seu dobro/metade de vibrações.
     Lembram do que vimos na aula? eu parti nota dó e fui subindo, para o agudo, para a direita no cromatismo, sempre me movendo um tom, foi ou não foi? pois então, se esse padrão de distância entre os graus terminar na mesma nota em que começou, isso resulta que nossa escala é perfeita. Ou  esqueceste que eu acabei de dizer que uma escala tem que começar e terminar na mesma nota? se eu começar em dó e me mover um tom de cada vez vai ficar assim: 

 dó -re - mi- fa# - sol# - la# - dó 

entendeu? então pensa comigo; se eu mudar o padrão de distância entre os graus vou ter diferentes tipos de escala. Olha o que acontece se eu andar sempre um tom e um semitom de cada vez - dá pra pensar que pulamos 2 casas, mas eu nã penso assim, não - se eu andar um tom e um semitom, fica desse jeito a minha escala;
 do - mib - fa# - la - do
 chamamos essa escala de diminuta. Mais adiante vamos enteder o que significa diminuto em linguagem musical, espera só.
 Para dominarmos as fórmulas, e também porque essa escala é muito usada em música, tipo, muito mesmo, a próxima escala que iremos fazer é a Maior - dizemos escala Maior. Esta escala está descrita bem detalhadamente no polígrafo, na próxima aula vemos o que resultou a explicação de aula mais a leitura do polígrafo.
 Forte abraço a todos; é um privilégio dividir com vocês o pouco que sei.

 Sérgio Nardes

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Processo Nardes em 10 tópicos rápidos





Para quem não está acompanhando o que estamos fazendo no Processo. 


1º - O Processo Nardes ensina música partindo de operadores matemáticos para a organização, cálculo e prática de todos os conteúdos em música. Tudo o que é preciso para saber música pode ser - e na verdade, pelos grandes musicistas realmente o é - entendido, organizado e desenvolvido por meio de ferramentas matemáticas, partindo de conteúdos que prescindem apenas de soma e divisão de números pares menores que 10. Não existe maneira mais simples e efetiva para estudar música. E apesar de pouca gente entender isso, ainda, as músicas que gostamos de ouvir não são outra coisa que combinações matemáticas; o Processo ensina a entender e manipular, calcular estas combinações, e esse "exercício", esta prática matemática não é outra coisa que tocar, compor e ouvir música.   

2º - Não defendemos posições ou orientação estética. Esta palavra entra em nosso discurso de aula e em nossa prática instrumental como possibilidade, como um exemplo do que pode ser feito, como amostragem do que as pessoas realizavam em determinado momento, mas nunca, em hipótese alguma, como um enunciado de certo e errado no fazer musical. Isso tem que acontecer por uma razão muito simples. Estudar  a História da Filosofia não é o mesmo que estudar Filosofia, ainda sabendo que neste caso Filosofia e História têm uma relação siamesa de influência. Mesmo neste caso podemos propor modelos em que se ensine filosofia sem recorrer ao seu processo de formação no tempo. Por outro lado, precisamos realmente saber como era a técnica pianística de um determinado país, dentro de uma determinada década do século XIX, e quais os referenciais técnicos e estéticos, de formação, do compositor da obra, precisamos ainda saber algo sobre os pianos do período, ler resenhas de críticos da época, estudar programas, ler biografias, precisamos isso tudo e na verdade mais do que isso para uma tentativa de realização estética da obra pretendendo reproduzir o que , como resultado final, se escutava quando da composição da obra. Mas para dominar as possibilidades técnicas que contêm aquelas usadas na reprodução de época não podemos ter em mente uma posição tacanha de que a amostragem de determinado período histórico da música deva ter alguma prevalência sobre outro, e essa posição equivocadíssima de misturar técnica com estética fará de nós musicistas incompletos, pouco competitivos e o pior de tudo, nos impedirá de interagir, uns com os outros. Não tem cabimento que ainda se escute falar em musicista que não lê ou o que é ainda mais inacreditável, musicistas que não tocam de ouvido! Queremos que o musicista saiba ao máximo, e este é o nosso filtro pedagógico; dentro do que o estudo matemático e os exercícios de combinação de padrões nos permitem, queremos o que é possível,  em música, saber,  e não o que foi ou é certo, em música, fazer.    

3º  - Formação. Pessoas estão trancando cadeiras na faculdade de música para cumprir o Processo, e na boa, se tem gente fazendo isso - e gente disposta a falar sobre o assunto, inclusive - discutir formação em vez de conteúdo é perda de tempo. As pessoas querem aprender música, simples assim. E entre aprender mais ou citar a formação de seus professores sem aprender elas sempre vão escolher a primeira à segunda, prioritariamente. Pode perguntar para o espelho. 

4º - O Processo Nardes está tentando criar um modelo de ensino de música acessível ao maior número de pessoas possível, sem nos envolver com o que cada um vai fazer com este conhecimento. Nossa proposta é capacitar qualquer pessoa para o exercício e compreensão do fenômeno sonoro, da camada epistemológica, da fenomenologia cinesiológica e equilíbrio durante a prática de instrumento até as fórmulas que tipificam conduções harmônicas e padrões de acentuação e subdivisão rítmica. 

5º - Desde que alfabetizada, uma criança pode cumprir o Processo nos mesmos moldes que um adulto; o Processo não diferencia idades, dado que trabalhamos com categorias matemáticas muito simples e já prontas mesmo em crianças que não leem. Alguém se deu ao trabalho de fazer uma análise métrica das cantigas infantis? a capacidade de cálculo rítmico das crianças - podemos ver até suas limitações de forma e tamanho - é muito evidente em cantigas de roda. É inclusive mais forte para a criança do que sua relação com a métrica da língua; perverte-se o ritmo da palavra como em berro que fica berrô, mas não compromete a divisão do ritmo e sua acentuação.  

6º - Pedagogicamente, entendemos que conhecimento é, no mínimo, crença justificada.  Dentro do estudo da música, partindo de sua postulação e estudo matemático, o que não pode ser explicado é tido como fenômeno, mas não postulado como algo sabido. No Processo, entendemos que o problema mecânico para se obter um vibrato constante na voz, uma palhetada clara na guitarra e controle do equilíbrio do arco do violino é o mesmo. O estudo e resolução deste problema soluciona-o em qualquer dispositivo mecânico que tenhamos em mãos. Por outro lado, não entender abstratamente é perder possibilidades, perder ligações, é perder camadas inteiras do fazer musical, e podemos dizer com orgulho que todos os nosso alunos se interessam por pensar e discutir a música. Ninguém quer ficar de fora da conversa...     

7º - Entendemos que um aluno adiantado no Processo tem que conseguir replicar outro aluno. Por isso, incentivamos enfaticamente que cada aluno tenha também os seus, com o mesmo rigor de justificação e experimento com que ele próprio estuda. Como não achamos que é o ensino de música mas sim o seu exercício o fomentador e produtor de renda  principal, nosso interesse é o de ensinar música ao maior número possível de pessoas e não o de ganhar o máximo possível com o número de pessoas. Muitos dos nossos alunos lecionam até de graça, num entendimento de que o conhecimento musical não deve ser cobrado. 

8º - Nossa divulgação maior é o depoimento de nossos alunos, nosso encontros abertos e nossos cursos de música gratuitos, em Poa e no interior. Somos pessoas de verdade unidas pela vontade e empenho de estudar música seriamente, não só mas também pelo prazer que é estudar música, e que pode ser afiançado por qualquer um de nós que tu encontre na rua.    

9º - Para o Processo, nada é anterior ao fenômeno rítmico

10º - O Objetivo do Professor de música deve ser o de transformar seus alunos em colegas e parceiros, em divulgadores da atividade em música. O professor não deve  mentir sobre o que consegue e não consegue realizar. Mostrar ao aluno onde está o próprio limite de realização mostra que não somente somos honestos mas também que reconhecemos que temos arestas. Deste modo, agindo com seriedade e isonomia, teremos alunos  motivados e disponíveis.

Afinação e Desafinação (1)


      Em música acontecem coisas bizarras. Quando digo em música, quero dizer no que as pessoas entendem por música, no que essa palavra e a atividade que ela rotula significam para o grosso das pessoas. Por mais inacreditavel que seja, o maior problema que enfrento para ensinar é fazer o aluno perceber que não é difícil e que não é preciso nenhum talento especial, nenhuma capacidade sobre humana para que possamos estudar e aprender música; meus pre-requisitos atualmente são estar alfabetizado e conseguir manter o tronco reto. Mas por culpa de uma compreensão distorcida do que é fundamentalmente – e antes de tudo – saber música, centenas de milhares de pessoas deixam de aprender. O triste dessa situação pedagógica é que essa má educação, essa má compreensão do fazer musical age como um vírus; leio coisas absurdas como um curso de técnica vocal que em sua divulgação fala que o que importa não é a afinação real mas sim sua afinação interna! É assustador. Estamos – eu ao menos e o leitor que está agora considerando isso acreditando que afinação, no mínimo deve ser algo objetivamente passível de medir, de verificar melhora ou piora de resultado. Só isto de verificar já é um troço estranhíssimo para mim, porque não se ensina afinação como se ensina uma música, não existe isso de mais ou menos afinado de afinado numa música e em outra não, de afinado nos graves mas não nos agudos, mas somente entender ou não entender o que é afinação, no violino, no tambor, na nossa voz e mesmo no ventilador de teto da tua casa.
    Afinação é um fenômeno físico, e essa conversa fiada – me desculpem a rugosidade do texto mas não acho outro adjetivo ao mesmo tempo claro e ameno para isso – de que afinação é algo que se constrói com relaxamento, com uma vivência interior do canto se expandindo e ocupando lugar dentro de nós,cara é mistificar e traduzir fenômenos físicos em termos idiossincráticos, subjetivos e completamente equivocados, como geralmente acontece com qualquer tentativa de estabelecer conhecimento de maneira subjetiva que prescinda de verificação. Não estou preocupado se é possível produzir resultado vocal em alguém com esse procedimento, e sei perfeitamente que existem pessoas que são tão musicais que aprendem até mesmo vendo pela televisão e ouvindo radio. Estou preocupado em delimitar o que é preciso, com o mínimo de confusão conceitual e o máximo de aproveitamento de instrução e tempo, para que o máximo possível de pessoas possa entender o máximo possível de música.
    Especificamente no caso do canto, a picaretagem é tal que só a consigo comparar com a que viceja no meio religioso; os professores ficam repetindo escalas e mais escalas e afundando seus alunos em questões de timbre e registro que só servem para produzir imitadores. Ninguém consegue manipular timbre, ninguém consegue ler, ninguém consegue improvisar mas todos têm um enorme cabedal de posições estéticas e técnicas do fulano e do cicrano, citação de escolas estéticas, orientação de ene professores; apesar de não oferecer resultado palpavel, por causa de uma industria pseudointelectual de ensino é passada e repassado, este modelo, como mais um de uma longa lista de remédios caseiros que não funcionam, mas que são rapidamente substituídos por outros e outros e outros. Ensino qualquer um a afinar a própria voz em poucos minutos, não importando o histórico que esta pessoa tem como aluno e nem a opinião que ela ou outro professor tenha dado anteriormente. E na verdade, geralmente já ensino o cantor a afinar mais do que o grosso das pessoas que não estuda música. O truque? Nenhum, apenas, em vez de experimentos corporais sobre ressonância e timbre e outras bobagens, pura e simplesmente convido o aluno a pensar e perceber o fenômeno do som. Ainda não encontrei nenhum ser humano – quem nasce com amusia é diferente porque é uma causa biológica e não entra no exemplo – que escute e seja desafinado, entendendo desafinado aqui como a pessoa que não consegue cantar ou emitir uma nota afinada com outra ou com algum centro tonal interno. Aliás, esse é um dos grande erros que os professores cometem; eles pressupoem que o aluno já sabe o que é afinar - como no estudo do ritmo, cometem o mesmo erro, pressupondo que o aluno já saiba dividir -  e que o seu trabalho é apenas fazê-lo cantar mais agudo e mais grave. Pergunte para alguém bastante afinado como é que ele explica a sua afinação e verás como é difícil, mesmo para quem é afinado, descrever o fenômeno. Quando este é entendido, o afinado e o desafinado estão em condições de igualdade para estudar, e com o passar do tempo e com um mínimo de estudo, pessoas que começam a instrução sem conseguir emitir nem uma única nota com constância e volume se nivelam com outros que sempre foram afinados. Respeito ao estudante de canto e caça aos picaretas da música. toca!